O ministro da Defesa do Mali, general Sadio Camara, foi morto durante uma série de ataques coordenados contra instalações militares em diversas regiões do país, incluindo a capital Bamako, as cidades de Gao e Kidal, no norte, e Sévaré, no centro.
A ofensiva, conforme reportagem da Al Jazeera, envolveu o grupo jihadista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, filiado à Al-Qaeda, e milicianos do movimento separatista tuaregue Frente de Libertação de Azawad.
A ofensiva teve início com um atentado suicida com carro-bomba contra a residência de Camara em Kati, cidade-guarnição localizada a cerca de 15 quilômetros de Bamako. Kati é considerada uma das áreas mais protegidas do país, o que evidencia a amplitude e o grau de planejamento da operação.
Camara era uma das figuras mais influentes do governo militar que tomou o poder após os golpes de Estado de 2020 e 2021. O correspondente da Al Jazeera em Bamako, Nicolas Haque, destacou que o general era visto por setores das Forças Armadas como um possível futuro líder do país, tornando sua morte um golpe de grande peso político para a junta.
O presidente interino do Mali, Assimi Goita, também líder do governo militar, foi transferido para um local seguro durante os ataques e permanece vivo e no comando, segundo Haque. Testemunhas relataram intensos tiroteios e explosões contínuas em Kidal, onde confrontos se prolongaram por mais de um dia após o início da ofensiva.
Os ataques ocorrem em um contexto de crescente fragilidade institucional no Mali, país que enfrenta desde 2012 uma guerra complexa envolvendo insurgências jihadistas, movimentos separatistas e disputas étnicas. O governo militar vinha tentando consolidar o controle territorial após a retirada das tropas francesas da Operação Barkhane e o encerramento da missão de paz da ONU, a MINUSMA.
A ausência das forças internacionais abriu espaço para que grupos como o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin expandissem sua presença no centro e no norte do país, regiões historicamente disputadas e de difícil controle estatal. A ofensiva representa a ação mais ousada desses grupos em anos, ao atingir simultaneamente o coração administrativo e militar do Estado malinês.
A União Africana e a Organização para a Cooperação Islâmica condenaram os ataques e expressaram solidariedade ao povo malinês, pedindo esforços regionais coordenados para estabilizar o Sahel. A região atravessa uma das piores crises humanitárias e de segurança do continente africano, com milhões de deslocados e presença crescente de grupos armados em países vizinhos como Burkina Faso e Níger.
Com a morte de Camara, o governo de Bamako enfrenta uma crise de liderança militar em meio à escalada da violência e ao isolamento diplomático crescente. A capacidade da junta de manter a coesão interna e responder à ofensiva sem o suporte logístico e de inteligência das missões internacionais será o teste central para a continuidade do atual governo.
Com informações de Al Jazeera.
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