O papa Leone XIV elevou o tom contra o que chamou de ‘senhores da guerra’ durante sua visita ao Camarões, criticando líderes que distorcem a fé e o nome de Deus para justificar conflitos armados.
Em missa celebrada no estádio Japoma, em Douala, o pontífice afirmou que o mundo ‘tem fome de paz, de liberdade e de justiça’, declarando que cada gesto de solidariedade é ‘um pedaço de pão para a humanidade faminta de cuidado’.
Leone apontou que poucos tiranos colocam o planeta em risco e criticou o uso político das religiões. Pediu aos fiéis que não desviem o olhar das injustiças e das desigualdades estruturais que marcam o continente africano.
Segundo a agência ANSA, o discurso ocorre em meio a dezenas de conflitos ativos no continente, conforme monitoramento de organismos como o ACLED e o SIPRI.
Em Douala, cidade marcada pelo contraste entre o porto moderno e as moradias precárias de barro e zinco, Leone percorreu as ruas em papamóvel. O pontífice observou as novas vias asfaltadas construídas para a visita e, ao fundo, os aglomerados de barracos que simbolizam a desigualdade do país.
O pontífice destacou que a abundância surge quando o alimento é partilhado, e não acumulado — em referência direta às condições de vida da população local.
Cerca de 120 mil pessoas participaram da missa no estádio Japoma, número ainda expressivo diante do calor intenso e da umidade sufocante que afetaram fiéis e o próprio pontífice. Em etapa distinta da viagem, Leone visitou Bamenda, no coração do Camarões anglófono, onde separatistas declararam uma trégua temporária para garantir a segurança da celebração.
Durante encontro com estudantes da Universidade Católica de Yaoundé, o Papa pediu que a juventude africana invista seus talentos no desenvolvimento do continente, em vez de buscar o bem-estar fora dele. Leone advertiu que a África precisa ser libertada da corrupção e dos novos colonialismos, citando explicitamente a exploração estrangeira das terras raras — minerais essenciais para a economia digital e para a indústria da inteligência artificial.
O pontífice encerrou uma das etapas do giro com visita a um hospital psiquiátrico em Douala, repetindo gestos de compaixão que já haviam marcado sua passagem por orfanatos e centros de acolhimento. Em momento separado, durante passagem pela Argélia, Leone visitou freiras agostinianas e escolheu peças de artesanato local como presente para a sobrinha — episódio que viralizou nas redes sociais após o Papa brincar que os brincos ‘não eram para ele’.
O presidente dos EUA, Donald Trump, reagiu às declarações do pontífice dizendo que ‘tem o direito de discordar do Papa’, em mais um episódio que evidencia o atrito crescente entre o Vaticano e Washington. O ambiente de hostilidade em torno da mensagem papal chegou a gerar um falso alarme de bomba na casa do irmão do pontífice, John Prevost, nos arredores de Chicago.
A passagem de Leone XIV pelo continente africano consolida uma agenda que vai além do campo estritamente religioso, combinando denúncia geopolítica, crítica ao extrativismo estrangeiro e apelo direto às novas gerações africanas. O giro pelo Camarões e pela Argélia coloca o Vaticano em rota de colisão com potências ocidentais que historicamente exploram os recursos naturais do continente enquanto pregam discursos de desenvolvimento e governança.
Leia mais sobre o assunto na ansa.it.
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