Cientistas decifram enigma da esfera dourada descoberta nas profundezas do Alasca

Ilustração editorial sobre Cientistas decifram enigma da esfera dourada descoberta nas profundezas do Alasca. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Em agosto de 2023, uma expedição da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) no Golfo do Alasca deparou-se com um objeto que desafiaria os limites do conhecimento científico. A cerca de 3,25 mil metros de profundidade, onde a escuridão é perpétua e a pressão esmagaria qualquer estrutura humana, o veículo operado remotamente Deep Discoverer capturou imagens de uma cúpula dourada e lisa, aderida a uma rocha vulcânica como se fosse um artefato alienígena.

O achado, batizado de ‘esfera dourada’, parecia extraído de um roteiro de ficção científica, evocando imagens de ovos cósmicos ou organismos bioluminescentes desconhecidos. Cientistas que acompanhavam a transmissão ao vivo da expedição Seascape Alaska 5 especularam em tempo real: seria um aglomerado de ovos, uma esponja em decomposição ou algo que emergira de uma fenda abissal?

A equipe da NOAA coletou o objeto com um amostrador a vácuo e o encaminhou ao Smithsonian National Museum of Natural History, onde uma investigação meticulosa teve início. Allen Collins, zoólogo da NOAA Fisheries e diretor do National Systematics Laboratory, admitiu que esperava uma solução trivial, mas o caso revelou-se uma complexa teia de mistérios biológicos e genéticos.

Sob microscópios de alta resolução, a esfera não apresentava estruturas anatômicas convencionais, como boca, intestinos ou fibras musculares. Em vez disso, exibia uma massa fibrosa recoberta por uma superfície lisa e estratificada, sugerindo uma origem orgânica, mas distinta de qualquer forma de vida conhecida até então.

A primeira pista concreta surgiu quando os pesquisadores identificaram espirócitos — células urticantes exclusivas dos cnidários hexacorais, grupo que inclui anêmonas-do-mar, corais pétreos e corais negros. Essa descoberta reduziu o escopo da investigação: o objeto pertencia, sem dúvida, ao filo Cnidaria, mas sua morfologia desafiava as classificações existentes.

Uma segunda pista emergiu de um espécime coletado em 2021 pelo Schmidt Ocean Institute próximo às ilhas Howland e Baker, no Pacífico Central. Na ocasião, o material dourado e escamoso fora confundido com uma esponja ou biofilme microbiano, mas análises posteriores revelaram células urticantes idênticas às da esfera do Alasca.

Para confirmar a origem dos espécimes, os cientistas recorreram ao sequenciamento genômico completo, uma vez que o código de barras de DNA tradicional falhou devido à contaminação por microrganismos. Os resultados foram surpreendentes: tanto a esfera do Alasca quanto o espécime do Pacífico continham DNA de Relicanthus daphneae, uma anêmona gigante de águas profundas.

Os genomas mitocondriais dos dois espécimes eram quase idênticos entre si e próximos a um genoma de referência já catalogado, confirmando a identidade da criatura. A Relicanthus daphneae, apesar de já descrita pela ciência, permanece envolta em mistérios, com poucos registros visuais e comportamentais disponíveis.

Essa anêmona possui um corpo que pode atingir 30 centímetros de diâmetro, com tentáculos rosados, arroxeados ou avermelhados que se estendem por metros. Alguns relatos descrevem tentáculos de até dois metros de comprimento, capazes de se desprender quando o animal é perturbado, uma estratégia de defesa que confunde predadores e pesquisadores.

O estudo, publicado no servidor de pré-prints bioRxiv, revela que a espécie habita regiões abissais, frequentemente próximas a campos hidrotermais ou rochas expostas, onde correntes marinhas concentram presas para seus tentáculos urticantes.

A pesquisa confirmou registros da Relicanthus daphneae entre 1,6 mil e 3,9 mil metros de profundidade, com evidências de distribuição global nos oceanos. A esfera dourada, portanto, não era um organismo desconhecido, mas sim uma cutícula — uma camada externa secretada — deixada para trás pela anêmona após sua morte, deslocamento ou reprodução.

Em muitas espécies de cnidários, a cutícula serve para ancorar ou proteger o corpo, e no caso da Relicanthus, ela permanece oculta sob o animal enquanto vivo. Quando a anêmona se move ou descarta sua base, a cutícula resistente permanece no ambiente, confundindo exploradores e robôs subaquáticos com sua aparência inusitada.

Um espécime coletado no Oceano Antártico, próximo a fontes hidrotermais, revelou fragmentos soltos de cutícula dourada e estratificada, cujo padrão correspondia exatamente à base da anêmona. Essa camada celular permite que o animal fixe seu corpo massivo ao substrato rochoso do oceano, resistindo às correntes abissais.

A esfera não estava isolada em seu ecossistema: ao sequenciar todo o DNA presente na amostra, os cientistas descobriram uma comunidade microbiana diversificada vivendo dentro e ao redor da cutícula. Alguns micróbios pertenciam a grupos conhecidos por metabolizar nitrogênio, enquanto outros eram típicos de sedimentos e biofilmes de águas profundas.

Entre os microrganismos identificados, havia linhagens pouco conhecidas ou possivelmente inéditas, sugerindo que a base morta da anêmona havia se transformado em um microcosmo de reciclagem biológica. Bactérias e arqueias decompunham tecidos ricos em nitrogênio, enquanto outros micróbios convertiam os subprodutos químicos em novas formas de energia.

Em termos práticos, a cutícula abandonada havia se tornado um reator biogeoquímico em miniatura, onde restos orgânicos alimentavam processos químicos que, por sua vez, sustentavam a vida microbiana. Esse ciclo de decomposição e transformação ilustra a complexidade dos ecossistemas abissais, onde cada fragmento orgânico pode se tornar o alicerce de uma nova cadeia alimentar.

O capitão William Mowitt, diretor interino da NOAA Ocean Exploration, destacou a relevância de descobertas como essa para a ciência e a exploração oceânica. ‘Com frequência, na investigação das profundezas marinhas, nos deparamos com enigmas fascinantes, como a esfera dourada’, afirmou. ‘Com técnicas avançadas como o sequenciamento de DNA, conseguimos desvendar cada vez mais desses mistérios’.

Mowitt reforçou que a exploração contínua das profundezas é essencial para desbloquear os segredos do oceano e entender como seus recursos podem impulsionar o crescimento econômico, fortalecer a segurança nacional e sustentar o equilíbrio do planeta. ‘O oceano profundo é o maior habitat da Terra, e ainda sabemos menos sobre ele do que sobre a superfície de Marte’, concluiu.

A pesquisa sobre a esfera dourada reforça uma verdade incômoda: o oceano abissal, que cobre a maior parte do espaço habitável do planeta, permanece amplamente inexplorado. Um único objeto estranho, coletado por parecer curioso diante das câmeras, revelou detalhes surpreendentes sobre um mundo submerso que guarda semelhanças perturbadoras com ambientes extraterrestres.

Se a esfera não tivesse aquele brilho dourado intrigante, talvez jamais tivesse chamado a atenção dos cientistas, permanecendo mais um mistério oculto nas trevas do abismo. A descoberta serve como um lembrete de que, mesmo no século XXI, a natureza ainda guarda segredos capazes de desafiar nossa compreensão e inspirar novas fronteiras da ciência.


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