Comunidade Mapuche denuncia destruição total após desalojo violento no Chile

Restos de uma ruka queimada após violento desalojo de famílias mapuches pewenche. (Foto: resumenlatinoamericano.org)

A comunidade mapuche pewenche de Rgaliko, no Alto Biobío, denunciou um desalojo violento que resultou na destruição completa de suas moradias tradicionais, as rukas. O episódio ocorreu em 23 de abril e envolveu forças do Estado chileno apoiadas por particulares ligados a grandes proprietários de terra, segundo o Resumen Latinoamericano.

Os integrantes da comunidade relataram que perderam todos os seus pertences, incluindo camas, alimentos, ferramentas e lembranças familiares. Eles acusam diretamente a família Bunster, tradicional latifundiária da região, de repetir práticas incendiárias atribuídas a seus antepassados durante a chamada pacificação do território mapuche.

Em declaração pública, os pewenche afirmaram que o ataque representa mais um capítulo do genocídio histórico contra o povo mapuche. As lideranças comunitárias criticaram duramente o governo do presidente Gabriel Boric, afirmando que o diálogo prometido se expressa, na prática, por meio de violência e deslocamento forçado.

Os moradores de Rgaliko destacaram que o desalojo destruiu não apenas suas casas, mas também anos de vida autônoma construída em território ancestral. O comunicado lembra massacres anteriores, como o de Rankil, e denuncia o uso das forças policiais e militares como braço armado dos latifundiários.

As famílias afetadas sustentam que jamais venderam suas terras, contestando a legalidade das aquisições feitas por colonos. Elas denunciam o que chamam de maquinação fraudulenta de contratos e afirmam que o Estado chileno atua em conluio com interesses privados, perpetuando uma política de expropriação que remonta ao século XIX.

Apesar da destruição, a comunidade reafirmou sua decisão de permanecer no território e reconstruir as rukas quantas vezes for necessário. O chamado ao wallmapu e às comunidades vizinhas busca apoio por meio do kellewun e do mingako, práticas tradicionais de solidariedade e trabalho coletivo que simbolizam resistência cultural e espiritual.

Os pewenche enfatizaram que não aceitarão ser rotulados como violentos ou terroristas, invertendo a acusação ao Estado e aos latifundiários. Para eles, a verdadeira violência é a que destrói lares, memórias e modos de vida ancestrais sob a justificativa de uma legalidade imposta pela força.

O caso de Lob Rgaliko reacende o debate sobre a criminalização das lutas indígenas no Chile e a persistência de um modelo concentrador de terras herdado do período colonial. Organizações de direitos humanos e movimentos sociais têm expressado solidariedade à causa mapuche, uma das resistências mais antigas e simbólicas do continente.

Em meio às cinzas das rukas queimadas, os pewenche reafirmam sua identidade, declarando que serão semente e que nenhum poder conseguirá arrancá-los da terra que consideram sagrada. O episódio reforça a urgência de um novo pacto entre o Estado chileno e os povos originários, baseado no respeito, na reparação e na autodeterminação.


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