A decisão da Costa do Marfim de abolir o visto aduaneiro exigido para o trânsito de mercadorias com o Mali e o Burkina Faso marca um ponto de virada nas relações econômicas da África Ocidental.
A medida, em vigor desde 11 de abril de 2026, foi saudada por especialistas e transportadores como um avanço concreto rumo à integração regional. Décadas de barreiras burocráticas que travavam o comércio entre os três países começam a ceder.
Conforme reportagem do portal RFI, um especialista marfinense em logística comparou a eliminação do visto à queda de um “muro de Berlim administrativo”. A supressão da exigência promete acelerar o trânsito de caminhões nos postos fronteiriços de Laléraba, na ligação com o Burkina Faso, e de Pogo, na rota para o Mali.
O secretário-geral da União dos Motoristas Rodoviários da África Ocidental, Daouda Bamba, destacou que o fim do visto representa um ganho concreto de tempo e eficiência. Antes da mudança, os caminhoneiros precisavam esperar até duas semanas para regularizar a documentação no porto de Abidjã, o que encarecia o transporte e criava gargalos logísticos de difícil resolução.
Com a desburocratização e a digitalização dos processos, o transporte de cargas deve se tornar mais ágil e previsível. O consultor em logística Youssouf Sangaré, baseado em Abidjã, afirmou que a decisão trará impacto direto nos preços dos produtos, já que o custo logístico é um dos principais componentes do valor final das mercadorias na região.
Sangaré observou que viagens que deveriam durar dois dias frequentemente se estendiam por cinco, e agora tendem a se aproximar do prazo ideal. A medida também corta custos indiretos, como taxas de estacionamento e pagamentos informais em barreiras de controle ao longo das rotas.
Para Sangaré, a supressão do visto aduaneiro representa mais do que uma simplificação técnica: é uma mudança de mentalidade entre os Estados da região. Ele definiu a medida como uma “passagem à confiança”, destacando que a nova política, ao permitir o compartilhamento eletrônico de dados, substitui controles físicos excessivos por cooperação institucional e transparência.
As autoridades da Costa do Marfim, do Mali e do Burkina Faso esperam que a integração aduaneira fortaleça o comércio intrarregional e aumente a competitividade dos produtos locais. Estimativas oficiais indicam que a eliminação do visto pode reduzir de 24 a 48 horas o tempo médio de espera nas fronteiras, com ganhos econômicos significativos para transportadores e consumidores finais.
Em 2024, o Mali consolidou-se como o terceiro maior destino das exportações marfinenses, representando cerca de 8% do total — volume aproximado de 1,5 bilhão de dólares, concentrado principalmente em produtos petrolíferos, conforme dados citados pela RFI. O comércio com o Burkina Faso continua marcado por forte desequilíbrio a favor da Costa do Marfim, que exportou cerca de 800 milhões de dólares em bens, contra 170 milhões em importações, compostas sobretudo por algodão e produtos agrícolas.
A medida também carrega peso simbólico num contexto de reconfiguração política no Sahel, onde Mali e Burkina Faso buscam ampliar sua autonomia econômica e diversificar parcerias regionais. Ao derrubar barreiras aduaneiras, a Costa do Marfim se posiciona como eixo logístico essencial para o interior do continente, reforçando sua centralidade nas rotas comerciais da África Ocidental.
Especialistas avaliam que a decisão pode inspirar outros membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) a adotar políticas semelhantes de simplificação fronteiriça. A aposta é que a confiança mútua e a digitalização das fronteiras se tornem pilares de uma nova etapa de desenvolvimento regional, capaz de reduzir custos, ampliar o comércio e fortalecer a soberania econômica do continente.
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