Uma onda de ataques coordenados em diversas regiões do Mali expôs a fragilidade do governo militar e levantou sérias questões sobre a estabilidade do país. Segundo o Al Jazeera, as ofensivas foram reivindicadas pelo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), grupo ligado à al-Qaeda, que declarou estar atuando em parceria com a Frente de Libertação de Azawad (FLA), uma facção tuaregue separatista, em regiões estratégicas como Kidal.
Os ataques alcançaram até a capital, Bamako, e a cidade de Kati, onde residem altas autoridades, incluindo o presidente. Isso evidencia as dificuldades do governo em conter a escalada de violência.
A situação em Kidal permanece crítica, com o JNIM reivindicando avanços significativos na região. O controle total da cidade, no entanto, ainda não está definido.
Mathias Hounkpe, pesquisador do Centro Carter e especialista em questões eleitorais na África, destacou a gravidade da situação. Ele observou que a chegada dos grupos armados a áreas centrais reflete uma fragilidade institucional profunda e compromete a confiança dos cidadãos no governo.
O Mali enfrenta múltiplas insurgências desde 2012, quando conflitos no norte do país desencadearam uma crise que persiste até hoje. O JNIM, formado em 2017 como uma coalizão de grupos jihadistas liderada por Iyad Ag Ghali, conta com milhares de combatentes e busca expandir sua influência na África Ocidental.
A FLA, criada em 2024 sob o comando de Alghabass Ag Intalla, luta pela independência da região de Azawad, no norte do Mali. Apesar de suas diferenças ideológicas, os dois grupos formaram uma aliança temporária contra o governo central de Bamako.
Bulama Bukarti, analista especializado em grupos armados da África Subsaariana, considera essa união uma estratégia pragmática de curto prazo. Ele explica que ambos os grupos visam enfraquecer o governo e consolidar territórios antes de retornarem às suas agendas distintas, o que torna a parceria instável a longo prazo.
Hounkpe também avalia que a colaboração entre JNIM e FLA tem limites claros. Para ele, a aliança deve se manter apenas até que regiões estratégicas sejam dominadas, como é o caso de Kidal.
Ulf Laessing, chefe do Programa Sahel da Fundação Konrad Adenauer, avaliou que os avanços rebeldes representam um desafio imenso para o governo do coronel Assimi Goita, no poder desde o golpe de 2020. Ele apontou que recuperar o controle sobre o norte do país será uma tarefa árdua, especialmente sem o suporte robusto de aliados internacionais.
Com a retirada das tropas francesas e europeias em 2023, o Mali passou a contar com o apoio de forças russas, inicialmente do grupo Wagner e agora sob a bandeira do Africa Corps, ligado ao Ministério da Defesa da Rússia. Laessing observa, porém, que Moscou mantém uma postura cautelosa, evitando envolvimento direto em operações de grande escala.
O governo maliano tenta equilibrar suas alianças com a Rússia e países vizinhos, enquanto enfrenta dificuldades para reconstruir a confiança interna. O Mali, ao lado de Níger e Burkina Faso, integra a Aliança dos Estados do Sahel (AES), mas analistas destacam que a coalizão tem recursos limitados para oferecer apoio militar significativo.
Hounkpe sugere que a sobrevivência do governo depende de uma mudança na estratégia de segurança e de esforços para reconquistar o apoio popular. Ele defende que Bamako priorize parcerias regionais com nações africanas, reduzindo a dependência de potências externas.
Enquanto isso, a população do Mali vive um clima de apreensão, com os recentes ataques intensificando os desafios de segurança nacional. A possibilidade de um diálogo político com os grupos armados, embora remota, começa a ser considerada como alternativa para evitar uma deterioração ainda maior da situação no país.
Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.
Leia também: Ministro da Defesa do Mali, general Sadio Camara, é morto em ofensiva coordenada de jihadistas e rebeldes tuaregues
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