Historiador prevê terceira derrota dos EUA e compara país ao nazismo

O filósofo francês Emmanuel Todd em seu apartamento em Paris. Fotografia: Sarah Lee para o The Guardian

O historiador francês Emmanuel Todd, conhecido por ter previsto o colapso da União Soviética e a ascensão de Trump, concedeu uma entrevista de rara franqueza ao jornal japonês Asahi Shimbun durante visita ao Japão.

O texto foi publicado no site Asahi Shimbun Asia and Japan Watch e reproduzido pelo próprio Todd em seu Substack.

O ponto de partida da análise é geopolítico e implacável: a guerra contra o Irã, conduzida pelos EUA em conjunto com Israel, não é uma demonstração de força , é uma fuga para frente.

Na visão de Todd, os EUA já acumularam duas grandes derrotas antes de abrir essa nova frente. A primeira foi no conflito ucraniano: "Os Estados Unidos, com seu setor manufatureiro em declínio, se mostraram incapazes de fornecer à Ucrânia armas e munições em quantidade suficiente." Isso expôs um fato estrutural , o sistema industrial americano não consegue sustentar uma guerra de grande escala.

A segunda derrota foi ainda mais reveladora. Quando Trump ameaçou a China com tarifas, Pequim respondeu com a ameaça de embargo sobre terras raras , e Washington recuou rapidamente. Todd é direto: tudo o que os EUA fazem hoje é uma "diversão destinada a fazer esquecer , a eles mesmos e ao mundo , essas derrotas".

A guerra contra o Irã segue a mesma lógica. Como o Irã não entrou em colapso, a situação escalou , e pode se tornar, nas palavras do historiador, "a terceira grande derrota dos Estados Unidos".

Todd vai além da análise estratégica e mergulha no diagnóstico civilizacional. Para ele, a causa profunda dessas guerras está na desintegração interna da sociedade americana , um vazio moral e espiritual que chama de "estado de religião zero". Nesse vácuo, diz, prolifera um nihilismo que parece encontrar prazer na destruição e no ato de matar.

A prática de eliminar líderes estrangeiros um a um é, nas palavras do historiador, inaceitável: "Não é o mundo da política moderna sensata. É o resultado da loucura." E acrescenta com precisão deliberada: "É o método de Hitler."

Questionado sobre a dureza da comparação, Todd foi ainda mais enfático , e se identificou: "Falo agora como judeu. Eu, um francês de origem judaica, critico essa loucura e essa imprudência com mais força do que qualquer outra pessoa." Para ele, o que os EUA e Israel praticam não é guerra no sentido clássico, mas assassinato sistemático de indivíduos , e o protagonismo nessa política teria migrado do Departamento de Estado e do Pentágono para a CIA.

Todd sustenta que os EUA já não funcionam como a república que fundaram há 250 anos. O Congresso e a Suprema Corte, diz ele, parecem ter se reduzido a órgãos consultivos. O que existe hoje é um "império" formado pelo presidente, pelo Pentágono e pela CIA , estrutura que confirma, em sua leitura, a degeneração do país em um "Estado assassino nihilista".

A segunda parte da entrevista foca no Japão. Todd cunha o conceito de "nacionalismo imaginário" para descrever o que considera uma contradição: a ideia de que ser hostil à China equivale a defender o interesse nacional japonês. "O verdadeiro nacionalismo japonês deveria visar a soberania do Japão", argumenta , e nesse sentido, a questão mais urgente não seria a relação com Pequim, mas com Washington, especialmente diante da presença militar americana em Okinawa.

Todd também alerta contra a nostalgia colonial em relação a Taiwan. Reconhece que a colonização japonesa da ilha foi, em termos históricos, relativamente bem administrada , mas insiste que esse passado não pode ser projetado sobre a geopolítica contemporânea.

No encerramento, Todd aponta uma direção concreta. Japão, China e Coreia do Sul compartilham um desafio demográfico comum, uma herança cultural confuciana e um peso industrial extraordinário: juntos, respondem por cerca de 90% da construção naval mundial. A recomendação é que o Japão se afaste discretamente dos EUA e aprofunde suas relações com os países asiáticos , em um mundo que caminha para a multipolaridade, esse seria o caminho para ser aceito, e não consumido, pela nova ordem que se forma.

Com informações de EMMANUELTODD.

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