O teto de Flávio e o chão de Lula

28.04.2026 - Lula e José Guimarães, ministro das Relações Institucionais. Foto: Ricardo Stuckert/PR.

A nova pesquisa Atlas Intel divulgada nesta terça-feira traz um dado que passou despercebido na maioria das manchetes, mas que pode ser o ponto de inflexão da corrida presidencial de 2026: pela primeira vez desde que entrou no jogo, Flávio Bolsonaro não cresceu.

O senador saiu de 40,1% em março para 39,7% em abril no principal cenário de primeiro turno. A oscilação está dentro da margem de erro, é verdade. Mas interrompe sete meses consecutivos de alta. A trajetória vinha sendo vertical: 23,1% em novembro, 29,3% em dezembro, 35% em janeiro, 37,9% em fevereiro, 40,1% em março. E, agora, a primeira parada.

O dado importa porque ajuda a entender a natureza do crescimento do senador. Flávio não cresceu por mérito próprio, por proposta, por trajetória política ou por carisma. Cresceu por absorção. Herdou o espólio do pai, capitalizou a unificação tática da direita em torno de um sobrenome conhecido e foi recebendo, mês a mês, os votos que estavam soltos no campo bolsonarista. Quando essa transferência se esgota, e tudo indica que se esgotou, o candidato precisa de combustível novo. E é justamente aí que começam os problemas dele.

Os cruzamentos regionais da Atlas contam essa história com clareza. Lula domina o Norte com 55,7% das intenções de voto, contra 30% de Flávio. No Nordeste, são 53,2% contra 34,5%. No conjunto dessas duas regiões, que somam dezenas de milhões de eleitores, a vantagem do presidente é de mais de vinte pontos percentuais. Flávio se sai bem onde já era esperado: 41,2% no Sudeste, 46% no Sul e 51,1% no Centro-Oeste. Mas o mapa de 2026 reproduz o de 2022 com uma diferença relevante. O Norte, que há quatro anos foi competitivo, agora se firmou como bolsão lulista. Para Flávio mudar o resultado da eleição, ele precisa furar uma região onde o presidente tem maioria absoluta, e os números mostram que ele não está conseguindo.

O recorte de classe é ainda mais revelador. Entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, Lula tem 51,7% e Flávio 35,4%. Aí está o núcleo histórico do voto lulista, e ele segue intacto. O ponto de tensão está logo acima, na faixa que ganha entre dois e três salários mínimos. Nesse extrato, Flávio aparece com 53,9% e Lula com 34,4%. É a baixa classe média que oscilou nos últimos ciclos eleitorais, ora pendendo para o lulismo, ora migrando para o bolsonarismo. É nessa faixa específica que a eleição de 2026 será decidida.

 

E é nessa faixa que o governo Lula tem as ferramentas mais concretas de atuação. O eleitor de dois a três salários mínimos não decide voto pelo debate ideológico. Decide pela conta do supermercado, pela prestação do financiamento, pela carteira assinada do filho, pelo programa habitacional que sai do papel. Cada décimo de redução de juros, cada ponto de inflação contida, cada obra de infraestrutura que gera emprego formal opera diretamente sobre esse extrato. A campanha governista não vai se ganhar no Twitter ou no estúdio de televisão. Vai se ganhar no caixa do supermercado e no contracheque.

A pesquisa BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira, confirma o quadro por outro ângulo. No principal cenário de primeiro turno, Lula tem 41% e Flávio 36%, vantagem semelhante à registrada pela Atlas. E há um dado adicional que fecha o raciocínio: 69% dos eleitores afirmam que a decisão de voto já está tomada e não vai mudar. O jogo se concentra, portanto, numa faixa estreita de eleitores que ainda admitem oscilar. E essa faixa mora majoritariamente onde o governo tem instrumentos para entregar resultado.

Flávio Bolsonaro pode ter encontrado seu teto. Lula está consolidando seu chão. A diferença entre os dois é que o teto, quando é alcançado, vira limite. O chão, quando é firme, vira plataforma de decolagem.

Clique aqui para baixar a íntegra da pesquisa.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.