Baía de Algeciras esconde mais naufrágios que toda a costa brasileira e revela 2.500 anos de história

Ilustração editorial sobre Baía de Algeciras esconde mais naufrágios que toda a costa brasileira e revela 2.500 anos de história. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

A Baía de Algeciras, no Estreito de Gibraltar, guarda 124 naufrágios — mais do que o triplo dos registrados em toda a costa brasileira. Um levantamento espanhol mapeou os destroços, que revelam 2.500 anos de rotas comerciais secretas e batalhas navais decisivas entre a Europa e a África. A descoberta, publicada em artigo científico recente, reforça a importância estratégica da região como ponto de passagem obrigatório entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

Os naufrágios abrangem desde o século V a.C. até a Segunda Guerra Mundial, com a maioria afundada em tempestades ou batalhas. A baía, hoje dominada por petroleiros, já foi palco de confrontos que definiram o poder na Europa, como as Guerras Napoleônicas e a luta contra submarinos nazistas. Felipe Cerezo Andreo, arqueólogo subaquático e líder da pesquisa, destaca que a área concentra mais destroços do que muitas regiões oceânicas inteiras.

O naufrágio mais antigo, de 2.500 anos, transportava ânforas de garum — molho de peixe fermentado produzido em Cádiz, então um dos maiores centros comerciais do Mediterrâneo. Entre os achados, destaca-se um submarino italiano da Segunda Guerra, identificado por ecossondas 3D, usado em ataques furtivos contra a frota britânica. A embarcação, conhecida como Maiale ou Porco, é um dos vestígios mais surpreendentes do levantamento.

A Baía de Algeciras, com apenas 29 milhas quadradas, tem águas rasas de cerca de 10 metros de profundidade, o que facilitou a identificação de 24% dos sítios arqueológicos submersos. Antes de 2019, apenas quatro locais eram conhecidos na área, sendo apenas um deles resultado de um naufrágio. A mudança climática, que altera correntes marinhas e movimenta sedimentos, tem exposto estruturas antes ocultas, acelerando as descobertas.

Os pesquisadores alertam que os vestígios estão ameaçados pela atividade de grandes navios petroleiros e pela instabilidade do fundo marinho. É fundamental documentar e proteger esses sítios, seja legal ou fisicamente, afirmou Andreo em entrevista à CNN. A equipe planeja expandir as buscas para áreas mais profundas, onde acreditam existir vestígios pré-históricos, já que o litoral da Idade da Pedra está hoje submerso.

O Estreito de Gibraltar sempre foi um dos pontos mais estratégicos do mundo, comparável ao Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Durante a Idade Média, serviu como porta de entrada para a Península Ibérica, enquanto na era moderna foi palco de batalhas navais que definiram o equilíbrio de poder na Europa. Os naufrágios revelam detalhes sobre a tecnologia naval de diferentes épocas, desde navios cartagineses e romanos até embarcações do século XIX e submarinos da Segunda Guerra.

Cada destroço é uma cápsula do tempo, carregando informações sobre rotas comerciais, técnicas de construção e até mesmo sobre as pessoas que cruzaram o estreito ao longo dos séculos. Para os arqueólogos, a baía é um arquivo submerso da história marítima da humanidade. Dos 151 sítios arqueológicos identificados, apenas 24% foram estudados em detalhe, o que significa que ainda há muito a ser descoberto.

A pesquisa também lança luz sobre a resistência dos materiais usados na construção naval ao longo dos séculos. Madeiras, metais e cerâmicas encontrados nos destroços oferecem pistas sobre a durabilidade das embarcações e as condições de preservação em ambientes submersos. Esses dados são valiosos não apenas para arqueólogos, mas também para historiadores da tecnologia e engenheiros navais.

Além do valor histórico, os naufrágios têm um impacto direto na compreensão das mudanças climáticas. A exposição de estruturas antes enterradas sob sedimentos é um indicador claro de como o aquecimento global está alterando os ecossistemas marinhos. A movimentação das correntes e a erosão do fundo do mar, aceleradas pelas mudanças climáticas, têm revelado vestígios que permaneceram ocultos por milênios.

A Baía de Algeciras, hoje um dos principais pontos de ancoragem para navios petroleiros, guarda em suas águas uma história que vai muito além do comércio moderno. Proteger esses sítios é preservar a memória de um dos corredores marítimos mais importantes da história. A equipe de Andreo planeja mergulhar em áreas mais profundas, onde a baía atinge 400 metros, em busca de vestígios ainda mais antigos. Acreditamos que há restos pré-históricos lá embaixo, porque o litoral do Paleolítico está hoje debaixo d’água, explicou o pesquisador.

Com informações de CNN.


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