O deserto do Atacama, no norte do Chile, guarda os céus mais escuros do planeta, um patrimônio cósmico que atrai telescópios bilionários e cientistas de todo o mundo. A região, com mais de 300 noites limpas por ano, é considerada o melhor lugar da Terra para observar o universo, mas enfrenta crescentes ameaças de poluição luminosa e projetos industriais.
A astrônoma do European Southern Observatory (ESO), Chiara Mazzucchelli, explica que a combinação de altitude elevada, clima árido e baixa umidade faz do Atacama um laboratório natural sem paralelo. O Extremely Large Telescope (ELT), em construção pela ESO a um custo de US$ 1,5 bilhão, promete revolucionar a astronomia ao capturar imagens 20 vezes mais nítidas que os telescópios atuais, mas sua eficácia depende da escuridão intocada do deserto.
Com 798 espelhos e uma área de captação de luz equivalente a um quarto de acre, o ELT será o maior telescópio óptico do mundo quando concluído, em 2030. O astrônomo da ESO, Stefano Cristiani, destaca que o equipamento permitirá analisar atmosferas de exoplanetas em busca de sinais de vida, uma das fronteiras mais promissoras da astrobiologia moderna.
A tranquilidade do Atacama, no entanto, está sob cerco. Em 2024, um projeto de complexo energético verde, planejado a apenas 10 quilômetros do Observatório Paranal, acendeu um alerta vermelho na comunidade científica. Especialistas advertiram que a poluição luminosa e as vibrações geradas pelo empreendimento poderiam comprometer décadas de investimentos em pesquisa astronômica.
A mobilização de astrônomos, físicos e até laureados com o Prêmio Nobel surtiu efeito, e a empresa responsável cancelou o projeto em janeiro. O episódio, porém, expôs as lacunas nas leis chilenas de proteção aos céus noturnos, consideradas vagas e desatualizadas. Daniela González, diretora da Fundação Cielos de Chile, afirma que o governo trabalha em novas regulamentações para equilibrar desenvolvimento econômico e preservação astronômica.
O Observatório Paranal, um dos 30 centros de pesquisa instalados no chamado Vale dos Fótons, opera em condições extremas. Localizado a mais de 3 mil metros de altitude, o complexo exige que cientistas vivam em instalações subterrâneas, com janelas permanentemente vedadas e movimentos restritos à luz de lanternas vermelhas, para evitar interferências nos sensíveis instrumentos.
A representante da ESO no Chile, Itziar de Gregorio-Monsalvo, ressalta que o Paranal abriga alguns dos telescópios mais avançados do mundo, como o Very Large Telescope (VLT). Julia Bodensteiner, pesquisadora da Universidade de Amsterdã, lembra que a competição por tempo de observação é feroz, com apenas 20% a 30% dos projetos submetidos sendo aprovados anualmente.
O diretor do Centro de Astronomia da Universidade de Antofagasta, Eduardo Unda-Sanzana, recorda que, há duas décadas, o Atacama era um ‘oceano de escuridão’, praticamente intocado. Hoje, a expansão urbana, a mineração e a instalação de parques eólicos fragmentaram a paisagem, criando um dilema entre progresso e preservação que o Chile ainda não resolveu.
Um caso histórico ilustra os riscos: o Observatório de Montezuma, operado pelo Smithsonian Institution dos EUA, foi fechado em 1955 após a mineração local contaminar o ar com poeira e poluentes. Unda-Sanzana alerta que, sete décadas depois, o país repete os mesmos erros, priorizando interesses econômicos de curto prazo em detrimento de um patrimônio científico único.
A ameaça não é apenas local. Segundo uma reportagem da Associated Press, a preservação dos céus escuros do Atacama é crucial para o futuro da astronomia global, incluindo a busca por vida extraterrestre e o estudo das origens do universo. Sem ação imediata, o Chile pode perder seu status de capital mundial da observação astronômica.
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