O humorista tunisiano Lotfi Abdelli, conhecido por suas críticas sociais e políticas, foi condenado à revelia a dezoito meses de prisão pelo tribunal de Sfax, no leste da Tunísia.
A decisão inclui acusações de ultraje a funcionário público, atribuição de fatos não comprovados a um agente estatal e ofensa aos bons costumes. As acusações estão relacionadas a um espetáculo de 2022 em que o artista ironizou a atuação policial, episódio que terminou em confusão e ampla repercussão nas redes sociais.
Exilado na França desde então, Abdelli reagiu com sarcasmo à sentença, afirmando que seu único delito é dizer a verdade. O caso, conforme reportagem da RFI, soma-se a uma série de condenações recentes que atingem figuras públicas e opositores na Tunísia.
O humorista, que construiu carreira abordando temas políticos de forma provocativa, tornou-se símbolo de resistência artística diante do endurecimento judicial. A cena de 2022, quando agentes à paisana tentaram interromper seu show, foi amplamente divulgada e gerou indignação entre defensores da liberdade cultural.
Nos últimos dias, outras personalidades também foram alvo de decisões judiciais severas. A advogada e comentarista Sonia Dahmeni, libertada em novembro após um ano e meio de prisão, foi novamente condenada em segunda instância a dezoito meses de reclusão por declarações feitas em programas de televisão.
O caso mais emblemático é o do líder do partido islâmico Ennahda, Rached Ghanouchi, de 84 anos. Em fevereiro de 2025, ele recebeu a pena mais grave: quarenta anos de prisão, sentença que se somou a uma condenação anterior de vinte anos por suposta ameaça à segurança interna do Estado.
Além deles, o ex-presidente da instância anticorrupção, Chawky Tabib, teve prisão preventiva decretada sob acusação de má gestão, após o fechamento do órgão por decreto presidencial em 2021. Esses episódios reforçam a percepção de que o sistema judicial tunisiano tem sido instrumentalizado para conter críticas e neutralizar figuras públicas incômodas ao poder.
Lotfi Abdelli, que hoje mantém carreira ativa na França, tem utilizado as redes sociais para denunciar o que considera perseguição política e moral. Sua postura irreverente e o tom de denúncia de seus espetáculos o tornaram um dos artistas mais controversos da Tunísia contemporânea.
A sucessão de sentenças contra jornalistas, advogados e artistas aponta para um padrão de endurecimento institucional que estreita o espaço para o pluralismo político e cultural no país. O caso Abdelli condensa, em uma única condenação, a tensão crescente entre o aparato judicial tunisiano e as vozes que insistem em questionar o poder.
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