Há repúblicas que nascem de revoluções populares, forjadas nas barricadas e no sangue de multidões que exigem um novo mundo. A República Brasileira, proclamada em 15 de novembro de 1889, não foi nenhuma dessas — nasceu de um golpe militar silencioso, articulado em gabinetes, e deixou o povo, como diria o jornalista Aristides Lobo, ‘bestializado’ diante do espetáculo que não compreendia.
Para entender esse paradoxo fundador, é preciso recuar décadas e mergulhar nas entranhas do Império que a República veio substituir. O Brasil de Dom Pedro II era uma anomalia no continente americano: uma monarquia tropical rodeada de repúblicas hispânicas, sustentada sobre a espinha dorsal de quatro séculos de escravidão e sobre uma aristocracia rural que confundia latifúndio com civilização.
O Segundo Reinado, que se estendeu de 1840 a 1889, foi um período de estabilidade política singular na América Latina, mas essa estabilidade tinha um preço altíssimo. Ela repousava sobre o chamado ‘parlamentarismo às avessas’, no qual o imperador exercia o Poder Moderador — um quarto poder constitucional inspirado no teórico franco-suíço Benjamin Constant — e escolhia os presidentes do Conselho de Ministros segundo sua vontade, invertendo a lógica parlamentar europeia.
A economia do Império era essencialmente agroexportadora, dominada primeiro pelo açúcar do Nordeste e depois, de forma avassaladora, pelo café do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista. Essa estrutura criou uma classe de fazendeiros poderosos, os ‘barões do café’, que financiavam o Estado e exigiam em troca autonomia política e mão de obra escrava garantida por lei.
A crise que destruiu o Império foi, portanto, uma crise de múltiplas fraturas simultâneas. A abolição da escravidão, consumada pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888 — assinada pela Princesa Isabel na ausência do imperador, que se tratava na Europa — alienou definitivamente a aristocracia rural escravocrata, que jamais perdoou a monarquia por não ter sido indenizada pela ‘perda’ de seus cativos.
Ao mesmo tempo, uma nova força social emergia com vigor crescente: o Exército. Forjado na Guerra do Paraguai (1864–1870), o maior conflito armado da história da América do Sul, o oficialato brasileiro voltou dos campos de batalha do Prata com uma consciência política aguçada e um profundo ressentimento contra a elite civil que os havia mandado à guerra sem apoio adequado. Figuras como o Marechal Deodoro da Fonseca e o Marechal Floriano Peixoto tornaram-se os símbolos de uma instituição que se via como guardiã da nação, superior à classe política que considerava corrupta e ineficiente.
O positivismo de Auguste Comte, filtrado pelo pensamento do brasileiro Benjamin Constant Botelho de Magalhães, professor da Escola Militar, forneceu a ideologia que amalgamou esses ressentimentos em um projeto político coerente. O lema ‘Ordem e Progresso’, estampado na bandeira republicana, não era um slogan vazio — era a síntese da filosofia positivista que pregava a substituição do regime teológico-monárquico por uma república científica e autoritária, conduzida por uma elite ilustrada.
O movimento republicano civil, organizado em torno do Partido Republicano Paulista, fundado em 1873, tinha uma agenda distinta da dos militares. Os fazendeiros de São Paulo queriam descentralização e autonomia para gerir seus próprios negócios e sua mão de obra imigrante, sem a tutela imperial do Rio de Janeiro. Eram republicanos por interesse, não por convicção filosófica.
A confluência dessas três forças — militares positivistas, fazendeiros cafeicultores ressentidos e intelectuais liberais — produziu o 15 de novembro. Deodoro da Fonseca, num ato que ele próprio inicialmente não compreendia como definitivo, cercou o Ministério da Guerra no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, e depôs o gabinete do Visconde de Ouro Preto. Dom Pedro II, informado do ocorrido, não resistiu e embarcou para o exílio europeu três dias depois, morrendo em Paris em dezembro de 1891.
A República que emergiu desse cenário carregava em seu DNA as contradições de sua origem. A Constituição de 1891, inspirada no modelo federalista norte-americano, criou os ‘Estados Unidos do Brasil’ e transferiu poder imenso para os governadores estaduais. O resultado foi a ‘política dos governadores’, sistematizada pelo presidente Campos Sales (1898–1902), um arranjo oligárquico no qual o governo federal não interferia nas oligarquias estaduais em troca de apoio no Congresso Nacional.
Esse sistema ficou conhecido como ‘coronelismo’, descrito décadas depois pelo cientista político Victor Nunes Leal em sua obra seminal de 1948. O coronel — o grande proprietário rural — controlava o voto dos dependentes, garantia os resultados eleitorais e recebia em troca cargos, verbas e impunidade do Estado. A ‘República Velha’ (1889–1930) foi, em essência, a institucionalização do poder privado sobre o espaço público.
A alternância de poder entre São Paulo e Minas Gerais — a chamada ‘política do café com leite’, referência aos dois produtos que dominavam as economias dos estados mais poderosos — foi o eixo em torno do qual girou a Primeira República por quatro décadas. Quando essa engrenagem travou, em 1930, com a candidatura de Júlio Prestes pelo lado paulista rompendo o acordo com Minas Gerais, o sistema ruiu sob o peso de seus próprios vícios, abrindo caminho para a Revolução de 1930 e a era Vargas.
A República Brasileira nasceu, portanto, sem povo e sem revolução — mas não sem história. Ela foi o produto de tensões centenárias entre escravidão e liberdade, entre centralização imperial e autonomia regional, entre uma elite que queria modernidade sem democracia e uma massa popular que foi sistematicamente excluída do pacto fundador. Compreender essa origem é compreender por que, mais de 130 anos depois, o Brasil ainda debate com tanta intensidade os limites entre a república formal e a república real.
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