Especialistas criticam duramente cortes de Trump que agravam crise do fentanil nos EUA

Sacos plásticos contendo fentanil HCL apreendido, com etiquetas de identificação. (Foto: aljazeera.com)

Especialistas criticam duramente os cortes promovidos pelo presidente Donald Trump, que agravam a crise do fentanil nos Estados Unidos. A combinação de austeridade fiscal com retórica militarizada coloca o país em situação difícil no enfrentamento da epidemia de opioides.

Uma reportagem do Al Jazeera revela que a estratégia atual ameaça reverter os avanços conquistados nos últimos anos. No Texas, o trabalho de base do Recovery Resource Council tem sido essencial para reduzir as mortes por overdose na região de Dallas.

O conselheiro Michael Watkins visita famílias afetadas em até 72 horas após um caso de overdose. Ele distribui informações educativas e o medicamento Narcan, que reverte os efeitos letais do fentanil.

Essa abordagem permitiu reduzir as mortes por overdose de 280 em 2023 para 203 no ano seguinte. As incertezas orçamentárias decorrentes dos cortes federais, porém, ameaçam a sustentabilidade dessas iniciativas comunitárias.

O governo Trump cortou bilhões de dólares em serviços de tratamento e prevenção, apesar de classificar o fentanil como arma de destruição em massa. Em janeiro, foram suspensos cerca de 2 bilhões de dólares em subsídios da Administração de Serviços de Abuso de Substâncias e Saúde Mental, embora a decisão tenha sido revertida dias depois.

Esses vaivéns geraram caos entre as organizações que dependem desses recursos para operar. A agência teve seu quadro de funcionários reduzido pela metade, com cortes adicionais de 1,7 bilhão de dólares em repasses a estados e 350 milhões de dólares em programas de prevenção.

A diretora da Big Cities Health Coalition, Chrissie Julianno, afirma que os cortes federais geram um impacto em cascata sobre os sistemas de saúde. Eles atingem não apenas os departamentos oficiais, mas também as redes comunitárias responsáveis pelo atendimento direto às vítimas.

Essa realidade compromete a capacidade de resposta local e mina a confiança necessária para o planejamento de ações de longo prazo. Enquanto isso, o mercado global do fentanil passou por transformações importantes após a repressão chinesa aos precursores químicos.

A produção migrou para a Índia, que mantém uma indústria farmacêutica menos regulada. Os insumos são então enviados ao México para síntese e posterior contrabando para os Estados Unidos.

O escritor e pesquisador Ben Westhoff, autor de Fentanyl Inc., critica o foco equivocado de Washington, que ignora o papel crescente da Índia nessa cadeia. Ele observa que, embora as mortes por overdose tenham caído cerca de 20% desde o pico da crise, o número absoluto de vítimas continua alarmante.

Westhoff defende que o investimento em tratamento e prevenção é tão importante quanto as ações policiais e militares. As pessoas precisam ter acesso a medicamentos para transtorno de uso de opioides antes de sofrerem uma overdose.

O professor Jonathan Caulkins, da Universidade Carnegie Mellon, critica a retórica que rotula o fentanil como arma de destruição em massa. Segundo ele, esse termo distorce o debate público e estigmatiza os dependentes químicos.

Caulkins lembra que, sob essa mesma lógica, o cigarro poderia ser classificado como arma de destruição em massa, pois mata mais americanos por ano do que o fentanil. Na prática, a militarização da resposta tem justificado ações externas controversas do governo.

Trump e seu gabinete chegaram a vincular ações militares contra a Venezuela ao combate ao narcotráfico. Especialistas rejeitam essa associação, pois o país não participa da produção de fentanil — e veem nessa narrativa uma tentativa de ampliar o alcance da guerra às drogas para fins geopolíticos.

Em Dallas, o ex-dependente Michael Watkins continua seu trabalho de porta em porta mesmo diante da escassez de recursos. Ele encontrou na reabilitação uma segunda chance e hoje ajuda outros a superarem o vício.

Watkins afirma que qualquer atenção ao tema é positiva se resultar em mais financiamento e apoio às ações locais. O caso de Dallas ilustra o dilema nacional entre soluções humanizadas implementadas nas comunidades e a preferência federal por medidas punitivas.

A combinação de cortes orçamentários com militarização pode deixar os Estados Unidos ainda mais em desvantagem no combate à crise do fentanil. O foco, dizem os especialistas, deveria estar no acesso a tratamentos antes que as overdoses ocorram.

Com informações de Al Jazeera.


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