Estudo do MIT revela que crianças são muito mais vulneráveis a substância cancerígena presente na água e em alimentos

Ilustração editorial sobre Estudo do MIT revela que crianças são muito mais vulneráveis a substância cancerígena presente na água e em alimentos. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Uma nova pesquisa conduzida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) revelou que a exposição a um contaminante comum presente em água poluída, medicamentos e alimentos processados pode representar um risco de câncer muito maior para crianças do que para adultos. O composto investigado, conhecido como NDMA (N-nitrosodimetilamina), foi associado a danos significativos no DNA e ao desenvolvimento de tumores em animais jovens, mesmo quando submetidos à mesma dose aplicada em adultos.

Segundo o portal ScienceDaily, os experimentos realizados com camundongos mostraram que os indivíduos jovens desenvolveram muito mais quebras duplas no DNA e mutações. Isso levou ao surgimento de cânceres de fígado, pulmão e linfoma.

A diferença estaria na velocidade com que as células infantis se dividem. Esse ritmo acelerado facilita a transformação de pequenas lesões genéticas em mutações permanentes antes que o organismo consiga repará-las.

A professora de engenharia biológica do MIT, Bevin Engelward, explicou que o estudo reforça a necessidade de repensar os protocolos de segurança para substâncias potencialmente carcinogênicas. Ela destacou que os testes toxicológicos geralmente são realizados apenas com animais adultos, o que pode mascarar riscos específicos para populações mais jovens e gestantes.

A pesquisa, liderada pela pós-doutoranda Lindsay Volk e publicada na revista Nature Communications, também ajuda a esclarecer casos anteriores de aumento de câncer infantil em Wilmington, no estado de Massachusetts. À época, 22 crianças foram diagnosticadas com câncer entre 1990 e 2000, e os poços afetados foram fechados em 2003, após a identificação da poluição originada do complexo químico Olin.

O NDMA é um subproduto de processos industriais e também pode ser encontrado em fumaça de cigarro e carnes processadas. O composto foi detectado em medicamentos como valsartana, ranitidina e metformina, o que levou a recalls em vários países ao redor do mundo.

Dentro do organismo, o NDMA é metabolizado por uma enzima hepática chamada CYP2E1, que gera subprodutos capazes de adicionar grupos químicos ao DNA, criando lesões conhecidas como adutos. Essas lesões, quando não reparadas a tempo, podem resultar em mutações e, posteriormente, em câncer.

Nos testes do MIT, tanto os camundongos jovens quanto os adultos apresentaram níveis semelhantes de adutos iniciais no DNA. Mas apenas os jovens desenvolveram quebras duplas e mutações em larga escala.

Os cientistas observaram que o crescimento acelerado das células hepáticas juvenis aumenta a probabilidade de que o dano genético se torne permanente antes que o corpo consiga corrigi-lo.

Quando os pesquisadores estimularam artificialmente a divisão celular em camundongos adultos, usando hormônio da tireoide, eles passaram a apresentar taxas de mutação semelhantes às dos jovens. Esse resultado indica que fatores como inflamação, infecções virais, dieta rica em gordura e consumo excessivo de álcool podem igualmente aumentar a suscetibilidade de adultos ao composto.

A equipe agora investiga como uma dieta gordurosa pode potencializar o risco de câncer em organismos expostos ao NDMA. Os achados podem ter implicações diretas em políticas de saúde pública e regulação ambiental.

O estudo contou com o apoio do programa Superfund de Pesquisa do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental (NIEHS) e de bolsas dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Para os autores, compreender as diferenças biológicas entre faixas etárias é fundamental para aprimorar os padrões de segurança.

A descoberta deve servir de alerta para autoridades sanitárias e ambientais em todo o mundo, especialmente em regiões com histórico de contaminação industrial.


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