Mais de duas décadas após o Acordo da Sexta-Feira Santa, que pôs fim oficial aos conflitos conhecidos como ‘Troubles’ em 1998, a Irlanda do Norte ainda convive com remanescentes do antigo movimento armado republicano.
Embora o Exército Republicano Irlandês (IRA) tenha deposto as armas, pequenas facções continuam a reivindicar ações em nome da reunificação da ilha. Essa chama política se manifesta hoje mais como símbolo do passado do que como força militar real.
Conforme apurado pela RFI, esses grupos surgiram da insatisfação de militantes que se opuseram ao fim da luta armada. Entre eles, destaca-se a chamada Nova IRA, formada entre 2011 e 2012 a partir da fusão de pequenas células paramilitares, com presença em Derry, Strabane, Belfast e outras localidades.
A organização é frequentemente associada ao partido Saoradh, que nega vínculos diretos com atividades violentas. O partido, no entanto, compartilha a oposição ao acordo de 1998.
Outras facções, como o Óglaigh na hÉireann — expressão gaélica que significa ‘Voluntários da Irlanda’ — e a IRA da Continuidade, também reivindicaram o legado republicano em diferentes momentos. O primeiro grupo anunciou cessar-fogo em 2018, após nove anos de atuação, embora tenha sido responsabilizado por ataques posteriores.
Já a IRA da Continuidade, criada ainda durante os anos finais dos Troubles, permanece sob vigilância das autoridades britânicas. O governo do Reino Unido a classifica oficialmente como organização terrorista.
As fronteiras entre essas organizações são por vezes difusas, com membros migrando entre grupos e alianças temporárias sendo formadas. Essa fluidez organizacional dificulta o mapeamento preciso das células ativas e alimenta a percepção de que o movimento dissidente opera mais como constelação fragmentada do que como estrutura coesa com comando centralizado.
Apesar de fragmentados e com capacidade militar reduzida, esses grupos continuam a ver a violência como instrumento legítimo para alcançar uma Irlanda unida. As ações recentes são pontuais e rapidamente neutralizadas pela polícia, refletindo mais uma tentativa de manter relevância política do que uma ameaça real à estabilidade.
Um dos episódios mais emblemáticos dessa precariedade operacional envolveu um entregador de pizzas em Lurgan, coagido a transportar um artefato explosivo até uma delegacia. O caso ilustra o esgotamento dos métodos empregados por essas células.
O assassinato da jornalista Lyra McKee, em 2019, durante confrontos em Londonderry, marcou profundamente a opinião pública. A Nova IRA assumiu a responsabilidade pelo disparo que matou a repórter, embora tenha alegado não ter sido um alvo intencional.
O caso reforçou o repúdio popular à violência e simbolizou o esgotamento moral das antigas justificativas revolucionárias.
Hoje, o ideal de reunificação continua vivo, mas canalizado sobretudo pela via política. Pesquisas recentes indicam crescimento do apoio à unificação, especialmente no norte da ilha, enquanto o sul mantém posição amplamente favorável há anos.
O Sinn Féin, partido republicano histórico, consolidou-se como principal força política tanto na Irlanda do Norte quanto na República da Irlanda. O partido defende a reunificação por meios democráticos e pacíficos.
A líder do Sinn Féin, Mary Lou McDonald, saudou o cessar-fogo de 2018 do Óglaigh na hÉireann, reforçando que a reunificação deve ser alcançada pelas urnas, não pelas armas. Essa postura reflete a transição do nacionalismo irlandês para uma fase institucional, em que o voto substitui o fuzil como instrumento de soberania.
O legado da IRA, embora ainda ecoe em pequenos grupos dissidentes, tornou-se parte de uma memória histórica que o país tenta reconciliar com o presente. Se um dia a Irlanda vier a se reunificar, tudo indica que será pela via democrática — e não pelo retorno às armas.
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