Nicola Piovani afirma que a inteligência artificial ameaça apenas os músicos ‘fotocopistas

Ilustração editorial sobre Nicola Piovani afirma que a inteligência artificial ameaça apenas os músicos 'fotocopistas'. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O compositor italiano Nicola Piovani, vencedor do Oscar por A vida é bela, usou ironia e lucidez para discutir o impacto da inteligência artificial sobre a criação musical.

Durante o encontro ‘A música para o cinema nos tempos da IA’, promovido pela Fundação Ennio Morricone e pela Associação de Compositores de Música para Filme em Roma, ele brincou que a tecnologia poderia substituir não só os compositores, mas até os próprios ouvintes e entrevistadores. A observação, feita com humor, abriu uma reflexão mais profunda sobre o papel da criatividade humana em meio à revolução digital.

Segundo a agência ANSA, Piovani relatou ter ouvido uma peça musical composta por IA ‘no estilo Piovani’. Após o espanto inicial, o maestro respondeu com ironia que talvez devesse registrá-la na SIAE, a sociedade italiana de direitos autorais.

O músico destacou que a reação humana diante das inovações tecnológicas sempre foi marcada por desconfiança. Ele lembrou exemplos históricos que vão da rejeição à pergaminha no Império Romano até a resistência ao livro digital e à energia elétrica nos séculos seguintes.

Para Piovani, o medo do novo é um traço constante da humanidade, especialmente entre gerações mais velhas. Ele citou o escritor Hans Magnus Enzensberger e o político italiano Walter Veltroni para reforçar que o problema não está na tecnologia em si, mas em como ela é utilizada.

O compositor comparou a invenção da lâmina — capaz tanto de curar quanto de matar — com a do plástico, que apesar de demonizado salva vidas em aplicações médicas. Ele também mencionou o uso ambíguo dos drones, que podem tanto entregar ajuda humanitária quanto lançar bombas sobre civis.

O maestro recordou que a música sempre incorporou avanços técnicos, desde o surgimento do microfone até o uso de programas de edição digital. No passado, a chegada das cópias xerográficas foi recebida com o mesmo ceticismo que hoje cerca a IA — e acabou ampliando o acesso à arte e à produção cultural.

Para ele, a tecnologia democratizou o ato de ouvir e criar música, tornando-a onipresente e acessível a todos. Piovani argumentou que a IA não ameaça os verdadeiros criadores, mas sim os músicos que apenas reproduzem estilos já consagrados.

Segundo ele, a parte da composição que se limita a imitar o trabalho de outros está em crise, pois os algoritmos são capazes de replicar padrões com perfeição. O compositor defendeu que a invenção genuína é o que distingue o artista do ‘fotocopista’ — e que a máquina jamais substituirá a capacidade humana de romper convenções e criar o inédito.

Para ilustrar, ele imaginou como seria o cenário se a IA existisse nos anos 1960. Um programa poderia ter composto uma trilha sonora ‘à la Dimitri Tiomkin’ para um western de baixo orçamento, mas jamais teria concebido as inovações sonoras de Ennio Morricone, que revolucionou o gênero com instrumentos inusitados como o scacciapensieri, o mandolim e o assobio.

Essa originalidade, segundo Piovani, é algo que nenhuma máquina pode reproduzir. O compositor encerrou sua intervenção com uma reflexão política sobre o impacto social das novas tecnologias.

Ele afirmou que os avanços científicos deveriam servir para reduzir o tempo de trabalho e melhorar a vida das pessoas, mas que na prática têm reforçado a concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos. Piovani criticou a lógica do lucro máximo, que transforma trabalhadores em descartáveis, e alertou que o verdadeiro problema da IA não é técnico, mas político e social.

Com essa análise, o maestro italiano propõe uma visão humanista e crítica sobre o futuro da criação artística. Sua fala ecoa um debate global sobre o papel das máquinas na cultura e na economia, em um momento em que a inteligência artificial redefine as fronteiras entre o humano e o automatizado.


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