Dados oficiais da alfândega chinesa mostram a Rússia substituindo o Golfo Pérsico no petróleo, o Brasil dominando o agro e a exportação tecnológica em alta, apesar do cerco americano repetido a reboque pelas chancelarias europeias
O cerco econômico montado por Washington contra a China, e prontamente endossado pelas chancelarias europeias na condição de vassalas, tinha um objetivo claro: sufocar a economia chinesa, isolar Pequim dos grandes mercados de tecnologia e energia, e reverter o deslocamento do eixo geopolítico para a Ásia. O acumulado de doze meses publicado pela Administração Geral das Alfândegas da China (GACC), referente ao período de abril de 2025 a março de 2026, mostra que o tiro saiu pela culatra.
A corrente de comércio chinesa atingiu US$ 6,61 trilhões. Foram US$ 3,89 trilhões em exportações contra US$ 2,71 trilhões em importações, deixando para Pequim um superávit de US$ 1,18 trilhão em apenas um ano. É como se a China tivesse tirado, líquido, o equivalente a um PIB australiano inteiro do resto do mundo. Não há sanção, tarifa ou bloqueio que tenha conseguido frear esse fluxo.
A nova fronteira do comércio chinês passa por Brasília
O Brasil deixou de ser um parceiro periférico e virou ator de primeira grandeza no comércio externo da China. O fluxo bilateral somou US$ 198,1 bilhões em doze meses, o que representa quase 3% de toda a corrente de comércio chinesa com o mundo.
O Brasil é responsável por 4,54% de tudo que a China importa do planeta, com US$ 123,5 bilhões em vendas brasileiras para o mercado chinês. Em sentido oposto, absorve 1,91% das exportações de Pequim. A balança bilateral é fortemente superavitária para o lado brasileiro.
A foto de hoje impressiona, mas o filme de longo prazo é o que conta a história. A corrente comercial Brasil-China cresceu 8,5% no último ano, 145% em uma década e 850% em vinte anos. O eixo Sul-Sul deixou de ser projeto de discurso e virou estatística aduaneira.
Energia: a Rússia ultrapassa o Golfo Pérsico
Para manter a sua máquina industrial operando, a China importou US$ 438,7 bilhões em combustíveis fósseis e derivados nos últimos doze meses. A geografia desses fornecedores é o melhor termômetro da reorganização geopolítica em curso.
A Rússia agora responde por 18,1% de todas as importações chinesas de combustíveis. São US$ 79,5 bilhões em apenas um ano, mais do que a soma da Arábia Saudita (US$ 42,7 bilhões), dos Emirados Árabes (US$ 28,4 bilhões) e do Omã (US$ 22,5 bilhões). O eixo eurasiático já é maior do que o tradicional eixo do Golfo Pérsico no abastecimento da segunda maior economia do mundo.
O caso iraniano merece atenção especial. Os dados oficiais da GACC registram apenas US$ 4 milhões em importações vindas do Irã em um ano inteiro, ou 0,0009% do total. O número é cosmético. Toneladas de petróleo iraniano chegam a portos chineses todos os meses, declaradas como originárias da Malásia ou dos Emirados, em uma das maiores operações de triangulação comercial da história. As sanções americanas não secaram o fluxo. Apenas mudaram o carimbo do passaporte do barril.
A segurança alimentar do dragão é brasileira
Se a Rússia abastece a indústria pesada da China, é o agronegócio brasileiro que coloca proteína nos pratos da classe média asiática. E aqui o domínio do Brasil chega a beira do constrangimento para os concorrentes.
No capítulo de soja e sementes oleaginosas, os números falam por si:
- Brasil: US$ 38,9 bilhões
- Argentina: US$ 5,3 bilhões
- Estados Unidos: US$ 4,4 bilhões
O Brasil vende para a China sete vezes mais soja do que a Argentina e quase nove vezes mais do que os Estados Unidos. A ofensiva tarifária que começou em 2018, no primeiro mandato de Donald Trump, foi o presente histórico que selou a aliança soja-Brasil-China. O agro americano nunca recuperou o terreno perdido. As exportações brasileiras de soja cresceram 5,2% no último ano, 115% em dez anos e 680% em vinte anos.
Em carnes, a história se repete. O Brasil vendeu US$ 10,2 bilhões em proteína animal para a China, contra US$ 3,1 bilhões da Austrália e US$ 2,2 bilhões da União Europeia. Sozinho, o Brasil supera Austrália e UE somadas. O salto histórico é ainda mais acelerado: 12,1% em um ano, 320% em dez anos e 1.200% em vinte anos.
Há ainda um capítulo em formação que merece menção. O café brasileiro, que vinte anos atrás praticamente não existia para o consumidor chinês (o ano de 2006 fechou com US$ 7,8 milhões), virou um boom comercial. Em doze meses, a China importou US$ 463 milhões em café do Brasil, alta de 45,3% em apenas um ano e crescimento acumulado de 5.800% em duas décadas. A geração urbana chinesa descobriu o expresso, e o produtor de Minas Gerais agradece.
Resta a base mineral da indústria pesada. No minério de ferro, o Brasil consolida o segundo lugar com US$ 29,9 bilhões, atrás apenas da Austrália (US$ 85,6 bilhões), favorecida pela proximidade logística. Houve uma leve queda de 2,1% no último ano por flutuações de preço, mas o volume brasileiro é 85% maior do que há dez anos e 410% maior do que há vinte anos.
O paradoxo dos chips: bloqueio sem efeito prático
A frente mais agressiva do confronto comercial é a tecnológica. Washington proibiu a venda de máquinas de litografia avançada e de chips de ponta para empresas chinesas. O cálculo era estrangular o setor de inteligência artificial, semicondutores e computação de alto desempenho do rival.
Os números mostram um quadro mais complicado para os Estados Unidos. A China continua sendo a maior importadora de chips do planeta: US$ 463,9 bilhões em circuitos integrados em doze meses. Mas a foto agregada esconde duas tendências.
Em primeiro lugar, a China já exporta US$ 233,5 bilhões em chips para o resto do mundo, basicamente nós maduros usados em automóveis, eletrodomésticos e aparelhos de consumo. Pequim está inundando o mercado global de semicondutores legados, e isso já acende alertas em Berlim, Tóquio e Seul.
Em segundo lugar, o domínio chinês na manufatura de produtos finalizados ficou mais avassalador, não menos. Em computadores e equipamentos de telecomunicações, a China exportou US$ 499,1 bilhões e importou US$ 162,6 bilhões. Em celulares, foram US$ 120,3 bilhões em vendas externas. A iPhone Inc. de Cupertino pode estampar California na embalagem, mas o aparelho continua saindo de Zhengzhou.
O cerco que fortaleceu o cercado
A leitura sóbria dos dados aduaneiros chineses do último ano desmonta praticamente todas as previsões triunfalistas que circularam em Washington desde o início da ofensiva. A China não foi isolada. A China não recuou tecnologicamente. A China não perdeu acesso a energia, a alimentos, a mercados.
Bruxelas e Londres adotaram o roteiro americano com entusiasmo de feitor. As chancelarias europeias se acomodaram no papel de capatazes políticos do projeto americano de contenção, com o agravante de carregarem um preconceito de longa data contra a China, herança do século XIX que ainda contamina o debate público europeu sobre a Ásia. O resultado prático foi uma indústria europeia mais fragilizada e uma autonomia estratégica do bloco que existe cada vez mais no papel.
Pequim, enquanto isso, fez o oposto do esperado. Garantiu sua segurança energética estreitando laços com Moscou e ignorando, na prática, as sanções ao Irã. Garantiu sua segurança alimentar consolidando a aliança com o agronegócio brasileiro. Respondeu ao bloqueio de semicondutores acelerando a substituição de importações em chips legados e ampliando a sua hegemonia na manufatura final de eletrônicos.
O cerco tarifário começou como uma ofensiva unilateral americana e virou um catalisador para a reorganização do comércio global em torno de uma arquitetura multipolar. Nesta nova ordem, o Sul Global não é coadjuvante. O Brasil, em particular, ocupa uma posição estratégica que nenhuma das grandes potências ocidentais consegue replicar: é o único país do hemisfério com escala suficiente para alimentar o gigante asiático e abastecer sua siderurgia ao mesmo tempo.
Não se trata aqui de uma guerra entre iguais com um vencedor declarado. Trata-se de um cerco econômico que falhou em conter o seu alvo e, no processo, acelerou a formação de uma ordem comercial em que Washington importa cada vez menos. Os dados da alfândega chinesa, hoje, são o melhor diagnóstico do erro de cálculo americano e da subserviência europeia.