Boletim Climatológico: Transição de estação traz alívio térmico pontual, mas já indica risco de seca e calor com possível super El Niño

Com a entrada do outono no Hemisfério Sul, os dias começam a encurtar e a insolação diminui gradualmente, abrindo espaço para um cenário típico de transição: temperaturas mais amenas e redução das chuvas em boa parte do País. Mas, em 2026, esse comportamento sazonal vem acompanhado de sinais mais complexos na atmosfera e no oceano. O mês de março registrou padrões atípicos em algumas regiões do Brasil, enquanto abril mantém tendências que podem se intensificar nos próximos meses, com a possível formação de um evento de El Niño de grande magnitude. Para entender esse cenário, em entrevista à Rádio USP Ribeirão nesta segunda-feira (4 de maio de 2026), o doutorando Eduardo Traversi de Cai Conrado, integrante do Grupo de Estudos Climáticos (GrEC) do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, detalhou a situação.

Segundo o pesquisador, março foi marcado por uma característica importante: a baixa amplitude térmica. “Tivemos mínimas mais elevadas e máximas mais baixas, ou seja, pouca variação de temperatura ao longo do dia”, explicou. De forma geral, as temperaturas ficaram próximas da média climatológica na maior parte do Brasil, com exceção da região Sul, onde os termômetros registraram valores mais altos.

No regime de chuvas, o comportamento foi mais heterogêneo. Um dos destaques foi a ocorrência de um evento de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) na Bahia, que provocou volumes expressivos de precipitação. Também houve excesso de chuva no norte do Amapá, associado à posição média da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Em contraste, partes da Região Norte registraram acumulados abaixo do esperado para o período, enquanto o restante do País permaneceu dentro da média.

Em abril, os padrões observados em março, em grande medida, se mantiveram. As temperaturas continuam próximas da normalidade, ainda com baixa amplitude térmica, inclusive no Sul, onde o calor mais intenso perdeu força. Já em relação às chuvas, a irregularidade se acentuou. A escassez hídrica na Região Norte se intensificou, especialmente no interior do Amazonas e do Pará, além da costa do Amapá. Por outro lado, a faixa litorânea do Nordeste vem registrando episódios de chuva mais intensa.

Esse quadro, no entanto, pode mudar nos próximos meses. “Estamos observando a inversão do sinal do ENOS (El Niño–Oscilação Sul), o que indica o fim da La Niña e a transição para um El Niño”, afirmou Conrado. Além disso, há sinais de mudança na Oscilação Decadal do Pacífico, um padrão climático de longo prazo. Quando essas duas variabilidades ocorrem simultaneamente, aumenta a probabilidade de eventos mais intensos.

Em contrapartida, o Centro-Norte e o Nordeste podem enfrentar o efeito oposto: redução acentuada das chuvas e aumento da frequência de ondas de calor. Trata-se de um padrão já conhecido, mas que, em versões mais intensas do fenômeno, costuma produzir impactos mais severos.

O Boletim Climatológico Mensal vai ao ar no último dia útil de cada mês e o GrEC é composto de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores dedicados ao estudo e monitoramento das condições climáticas e atmosféricas, tanto no Brasil quanto globalmente. Fundado com o objetivo de investigar os fenômenos climáticos e suas consequências, o GrEC atua na previsão de eventos extremos, na análise de tendências climáticas e na elaboração de cenários futuros que ajudam a orientar políticas públicas e estratégias de adaptação às mudanças climáticas.

O grupo é coordenado pelo professor Tércio Ambrizzi, especialista em Climatologia e Mudanças Climáticas, e pela professora Rosmeri Porfírio da Rocha, que foca suas pesquisas em meteorologia aplicada e eventos climáticos extremos. Ambos possuem ampla experiência acadêmica e prática, contribuindo com suas expertises para a produção de estudos e boletins que auxiliam no entendimento dos padrões climáticos, além de participarem de projetos de cooperação nacional e internacional voltados para o clima e o meio ambiente. O grupo tem ainda os pós-graduandos Paola Gimenes Bueno e Christhyan Paixão de Godoy Lopes como coordenadores discentes.

Fonte: Jornal da USP.

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