Antes de existir qualquer bandeira de cinquenta estrelas, antes de qualquer constituição proclamada em Filadélfia, o território que viria a se chamar Estados Unidos da América era um mosaico de civilizações milenares. Povos como os Haudenosaunee — a Liga das Cinco Nações Iroquesas —, os Anasazi do sudoeste árido e os Mississippianos das grandes planícies centrais haviam erguido sociedades complexas, com redes de comércio, sistemas de governança e arquitetura monumental que remontavam a mais de dois milênios antes da chegada europeia. A chegada de Cristóvão Colombo em 1492 não foi uma ‘descoberta’: foi o início de um dos maiores colapsos demográficos da história humana, com estimativas que apontam para a morte de 50 a 90 milhões de indígenas nas Américas ao longo dos dois séculos seguintes, vitimados por doenças, escravidão e guerra sistemática.
A colonização inglesa do que hoje é o território americano começou de forma hesitante e brutal. A colônia de Jamestown, fundada em 1607 na Virgínia por mercadores da Companhia de Londres, foi o primeiro assentamento permanente inglês — e quase fracassou completamente no inverno de 1609, quando colonos desesperados recorreram ao canibalismo para sobreviver, episódio confirmado por escavações arqueológicas realizadas pelo Smithsonian Institution no século XXI.
O modelo econômico que sustentaria as treze colônias foi construído sobre dois pilares de violência estrutural: a expropriação das terras indígenas e o trabalho escravo africano. Em 1619, um navio negreiro holandês desembarcou os primeiros africanos escravizados em Point Comfort, na Virgínia — data que o Projeto 1619 do New York Times propôs, com enorme controvérsia acadêmica, como o verdadeiro ano de fundação dos Estados Unidos, argumentando que a escravidão, e não a liberdade, foi o alicerce central da nação.
As treze colônias que se rebelariam contra a Coroa Britânica em 1776 não eram uma sociedade igualitária em busca de liberdade universal. Eram, em sua maioria, oligarquias de proprietários de terra e escravos, comerciantes e especuladores imobiliários que ressentiam os impostos de Londres mas não questionavam a hierarquia racial que sustentava sua prosperidade. Dos cinquenta e seis signatários da Declaração de Independência, pelo menos quarenta e um eram proprietários de escravos — incluindo Thomas Jefferson, o próprio autor das palavras imortais ‘todos os homens são criados iguais’.
A Revolução Americana de 1776 foi, portanto, uma revolução profundamente contraditória. Ela produziu a primeira constituição republicana moderna do mundo ocidental e simultaneamente codificou a escravidão em seu texto, com a infame cláusula dos ‘três quintos’, que contabilizava cada escravo como três quintos de uma pessoa para fins de representação parlamentar — garantindo poder político desproporcional aos estados escravistas do Sul.
A doutrina do ‘Destino Manifesto’, formulada explicitamente pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, não foi uma novidade ideológica: foi a sistematização de uma crença que guiava a expansão americana desde os primeiros colonos puritanos do século XVII. A ideia de que Deus havia reservado o continente norte-americano para o povo anglo-saxão protestante justificou o extermínio e a remoção forçada de dezenas de nações indígenas, culminando no Indian Removal Act de 1830, assinado pelo presidente Andrew Jackson, que forçou a marcha de milhares de Cherokee, Choctaw e Creek em condições tão letais que ficou conhecida como o ‘Caminho das Lágrimas’.
A Guerra Mexicano-Americana de 1846 a 1848 foi o ápice territorial do Destino Manifesto no século XIX. Pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo, os Estados Unidos arrancaram do México mais de 2,3 milhões de quilômetros quadrados — os atuais estados do Texas, Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah e partes do Colorado e Wyoming —, uma expansão que o general Ulysses S. Grant, futuro presidente americano, descreveria em suas memórias como ‘uma das guerras mais injustas jamais travadas por uma nação mais forte contra uma mais fraca’.
A Guerra Civil Americana, travada entre 1861 e 1865, foi o momento em que as contradições fundadoras da república explodiram em conflito armado de escala industrial. Mais de 620 mil soldados morreram — mais americanos do que em todas as outras guerras do país combinadas até o século XX —, e a abolição da escravidão, formalizada pela 13ª Emenda em 1865, não resolveu a questão racial: inaugurou um novo ciclo de terror sistemático contra a população negra, com os chamados Códigos Negros, a ascensão da Ku Klux Klan e o regime de segregação legal conhecido como Jim Crow, que perduraria até a década de 1960.
O fim do século XIX viu os Estados Unidos transformarem sua energia expansionista para além de suas fronteiras continentais. A Guerra Hispano-Americana de 1898 foi o batismo do imperialismo americano no cenário global: em menos de quatro meses, Washington derrotou a Espanha e assumiu o controle de Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas, onde a subsequente guerra de pacificação entre 1899 e 1902 matou entre 200 mil e 600 mil filipinos, segundo estimativas históricas variadas. O senador Albert Beveridge, em discurso no Congresso americano em 1900, sintetizou o espírito da época com uma franqueza raramente vista hoje: ‘Deus não preparou os povos de língua inglesa e de sangue teutônico por mil anos por nada… Ele nos fez os mestres organizadores do mundo’.
A trajetória dos Estados Unidos, da colônia sangrenta ao império global, é inseparável de suas contradições fundadoras. A nação que proclamou a liberdade como valor supremo construiu sua riqueza sobre o trabalho escravo; a república que prometeu governo do povo expandiu seu território pelo extermínio e pela guerra; o país que se autoproclamou farol da democracia inaugurou o século XX como potência imperial no Pacífico e no Caribe. Compreender essas raízes não é um exercício de pessimismo — é a única forma honesta de entender por que, mais de dois séculos depois, as contradições entre o discurso da liberdade e a prática do poder ainda definem, com uma persistência assombrosa, a política americana e seus efeitos sobre o restante do mundo.
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