Um relatório apresentado no Fórum Permanente das Nações Unidas para as Questões Indígenas revela que redes de crime organizado já afetam 67% dos municípios da Amazônia. O documento também indica que 32% dos territórios indígenas na região sofrem o impacto dessas redes.
O estudo, intitulado Amazônia sob cerco, mostra como o crime e a militarização ameaçam os povos indígenas da região. Ele foi elaborado pela organização Amazon Watch em parceria com 15 entidades indígenas de cinco países sul-americanos, conforme reportagem do portal Resumen Latinoamericano.
As economias ilegais de mineração de ouro, narcotráfico, extração de madeira e tráfico de pessoas se interconectaram e transformaram as economias locais. Desde 2012, ao menos 296 defensores ambientais foram assassinados na região, com Colômbia e Brasil figurando entre os países mais perigosos para ativistas.
O diretor do Programa Amazônia Ocidental da Amazon Watch, Raphael Hoetmer, afirmou que as respostas militarizadas dos Estados falharam repetidamente. Ele advertiu que tais medidas muitas vezes agravam a violência em vez de resolvê-la.
Hoetmer defende que a segurança nos territórios deve se basear na autodeterminação dos povos indígenas. O especialista rejeita a ocupação militar que substitui soluções comunitárias por formas de controle externo.
O relatório analisa sete casos específicos em cinco países da América do Sul. Os países examinados são Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
No território Munduruku, a mineração ilegal de ouro se intensificou com a presença de facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Na fronteira entre Brasil e Peru, o território Yuruá-Jurúa-Alto Tamaya enfrenta o avanço do narcotráfico e do desmatamento.
Na Colômbia, a região do Putumayo se destaca como estratégica para o tráfico de cocaína, onde atuam os Comandos de la Frontera e dissidências das FARC. No Equador, a Nacionalidade Kichwa do Napo sofre com a mineração ilegal e organizações criminosas como Los Lobos e Los Choneros.
Os povos Kakataibo e Wayãpi no Peru enfrentam pressões semelhantes de mineração e narcotráfico. No sul da Venezuela, as terras dos povos Pemón, Kariña e Piaroa são disputadas por grupos armados que exploram ouro e coltã.
A liderança indígena Josefina Tunki, vice-presidenta da Rede Territórios de Vida da América Latina, denunciou a perseguição aos povos originários. Ela relatou que na Cordilheira do Cóndor, entre Equador e Peru, os rios estão contaminados e os líderes vivem sob ameaça constante.
Jackeline Odicio, presidenta da Federação de Mulheres Kakataibo, pediu o fim da criminalização das comunidades indígenas durante a apresentação na ONU. A liderança destacou que mulheres e crianças são vítimas de violência sexual, trabalho forçado e recrutamento por grupos armados.
O ex-presidente da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas do Peru, Ricardo Soberón, criticou a abordagem militarista dos governos. Ele defendeu políticas sociais e o fortalecimento da governança indígena em vez da mera repressão.
Hoetmer acrescenta que a melhor estratégia de segurança é o respeito aos direitos coletivos dos povos. O diretor citou as guardas indígenas formadas por membros das próprias comunidades como modelo de proteção territorial.
Herlin Odicio, vice-presidente da Organização Regional Aidesep Ucayali, explicou que essas guardas utilizam drones e câmeras para monitorar invasões. As iniciativas, porém, ainda carecem de recursos e de apoio institucional adequado.
O relatório conclui que a Amazônia vive uma crise de soberania e de direitos humanos. A defesa dos territórios indígenas revela-se essencial para o equilíbrio climático e ecológico do planeta.
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