Entidades denunciam golpe eleitoral nos EUA que pode beneficiar Trump

Entidades do movimento negro e dos direitos civis dos Estados Unidos denunciam um golpe contra a democracia do país após a decisão da Suprema Corte, de maioria conservadora, que derrubou o mapa eleitoral para o Congresso do estado de Louisiana.

O presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), Derrick Johnson, afirmou que a democracia norte-americana “clama por socorro”. Segundo ele, “a decisão de hoje é um golpe devastador para o que resta da Lei dos Direitos de Voto e uma licença para políticos corruptos que querem manipular o sistema silenciando comunidades inteiras. A Suprema Corte traiu os eleitores negros, traiu a América e traiu nossa democracia”.

Por seis votos a três, a decisão do Supremo alterou os efeitos da Lei dos Direitos de Voto ao considerar que o mapeamento dos distritos eleitorais de Louisiana se baseou excessivamente em critérios raciais. Dois distritos de maioria negra deverão ser redesenhados, o que pode modificar a composição partidária do estado no Congresso.

Após o veredicto, o governador de Louisiana, Jeff Landry, cancelou na quinta-feira (30) as primárias previstas para 16 de maio, a fim de alterar os mapas eleitorais antes da votação.

Analistas apontam que a mudança tende a favorecer os republicanos e o presidente Donald Trump num momento em que o chefe da Casa Branca perde popularidade por causa das consequências políticas e econômicas da guerra contra o Irã. A decisão abre margem para que outros estados alterem distritos de maioria negra e latina — eleitorados que tradicionalmente votam nos democratas — sob a justificativa de que os mapas teriam sido desenhados com base em critérios raciais.

O reverendo Al Sharpton, presidente da National Action Network, declarou que a Suprema Corte “desmantelou” o legado de Martin Luther King. “A decisão de hoje é uma bala no coração do movimento pelos direitos de voto. O Dr. King não marchou sobre a ponte Edmund Pettus para que seis juízes em Washington desfizessem silenciosamente o que foi conquistado com sangue”, disse Sharpton.

O historiador James N. Green, da Brown University, lembrou que a lei esvaziada pela Corte foi criada em 1965 no contexto do movimento pelos direitos civis. “Para solucionar a marginalização das pessoas negras — e, depois, latinas — foram desenhados distritos onde a maioria da população era negra, quase garantindo a eleição de um deputado negro. Isso ajudou a superar décadas de apartheid e assegurou a participação dos negros no Congresso”, explicou.

Trump celebra

O presidente Donald Trump comemorou publicamente a decisão. “Esse é o tipo de decisão que eu gosto”, declarou a jornalistas na Casa Branca. Em rede social, agradeceu ao governador Jeff Landry por levar o caso à Suprema Corte “e por agir com tanta rapidez para corrigir a inconstitucionalidade dos mapas eleitorais da Louisiana”. No mesmo dia, incentivou o governador do Tennessee a redesenhar distritos de modo a favorecer os republicanos: “Isso deve nos dar uma cadeira a mais e ajudar a salvar nosso país dos democratas da esquerda radical e de suas políticas destrutivas”.

Democratas reagem

Lideranças democratas prometem reagir para evitar a perda de representação e conter a manipulação eleitoral — prática conhecida como gerrymandering — nas eleições legislativas de meio mandato marcadas para novembro. A prática, já intensificada no Texas, levou Califórnia (controlada pelos democratas) e Missouri (de maioria republicana) a seguirem o exemplo. Antes da decisão da Corte, a Flórida também alterou seus limites distritais para favorecer os republicanos.

“Em um estado onde a vice-presidente Kamala Harris, candidata presidencial democrata, obteve 43% dos votos há dois anos, o Partido Republicano pode controlar 86% das cadeiras da Câmara”, destacou o New York Times ao analisar as mudanças na Flórida nesta semana.

A Flórida é o oitavo estado a redesenhar mapas para a eleição parlamentar de 2026. As alterações em Texas, Missouri, Carolina do Norte, Ohio e Flórida tendem a beneficiar os republicanos, enquanto mudanças em Califórnia, Utah e Virgínia devem favorecer os democratas.

A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) classificou o veredicto da Suprema Corte como “vergonhoso” e afirmou que a Lei dos Direitos de Voto é “a espinha dorsal da nossa democracia multirracial”. “Os eleitores devem decidir quem os representa — e não o contrário. Políticos que se opõem ao direito ao voto interpretarão essa decisão como um sinal verde para impor novas restrições”, disse Alanah Odoms, diretora da ACLU na Louisiana.

James N. Green, que também preside o Washington Brazil Office (WBO), acredita que a reação democrata poderá neutralizar, em boa medida, a manipulação republicana nas eleições de novembro. “Mesmo com esses redesenhos, poucos podem ser implementados em 2026. A maioria só entrará em vigor em 2028 ou 2030, ou seja, nas eleições presidenciais. O impacto virá mais adiante”, avaliou.

Entenda o gerrymandering

Diferentemente do Brasil, onde a eleição para a Câmara dos Deputados segue o modelo proporcional, nos Estados Unidos a votação é distrital. Para se eleger, o candidato precisa obter a maioria dos votos num distrito específico; votos de outros distritos não contam.

Assim, caso a linha que delimita um distrito seja traçada para diluir a concentração de eleitores de uma minoria (por exemplo, negros em área urbana), o redesenho pode repartí-los entre dois distritos diferentes, onde passarão a ser minoria diante de populações brancas e rurais incluídas artificialmente na mesma circunscrição.

As propostas de manipulação eleitoral por meio da redefinição de fronteiras buscam, portanto, desenhar áreas em que a maioria seja favorável à visão política de quem controla o processo.

Fonte: Agência Brasil

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.