O universo primordial guarda segredos que desafiam as leis conhecidas da física, e o Telescópio Espacial James Webb acaba de arrancar mais um véu dessa cortina cósmica. Dados recentes sugerem que os minúsculos pontos vermelhos capturados por suas lentes infravermelhas não são simples galáxias, mas sim estrelas de buraco negro, estruturas colossais onde gás denso alimenta um núcleo supermassivo em formação.
A descoberta, detalhada em análise publicada pelo portal Space, baseia-se na correlação entre imagens do James Webb e registros de raios-X do Observatório Chandra, da Nasa. O cruzamento de dados revelou que um desses pontos, catalogado como 3DHST-AEGIS-12014, emite energia similar à dos quasares, objetos celestes onde buracos negros devoram matéria em ritmo frenético.
Se confirmada, a natureza desses objetos reescreverá os capítulos iniciais da cosmologia moderna, oferecendo pistas sobre como os buracos negros supermassivos surgiram no alvorecer do universo. Até então, a ciência debatia se esses titãs nasciam da fusão de buracos negros menores ou do colapso direto de nuvens de gás primordiais, mas as novas evidências apontam para a segunda hipótese.
O astrônomo Andy Goulding, da Universidade de Princeton (EUA), destacou que o sinal de raios-X permanecia oculto nos arquivos do Chandra há mais de uma década. Foi necessário o poder de resolução do James Webb para revelar que o objeto observado é, na verdade, uma estrutura compacta, com apenas algumas centenas de anos-luz de diâmetro, mas capaz de emitir energia equivalente à de galáxias inteiras.
A astrônoma Anna de Graaf, da Universidade de Harvard (EUA), liderou um estudo que identificou vapor de água nessas formações, indicando temperaturas entre 1.700 e 3.700 graus Celsius. Embora pareçam escaldantes, esses valores são considerados gélidos quando comparados ao núcleo de estrelas convencionais, como o Sol, reforçando a singularidade desses objetos.
Medições fotométricas realizadas pelo Telescópio Espacial Hubble atestam que o objeto é observado exatamente como existia há cerca de 11,8 bilhões de anos. Essa janela temporal coloca os cientistas diante de um dos enigmas mais antigos da astronomia: como buracos negros supermassivos cresceram tão rapidamente após o Big Bang, quando o universo tinha menos de um bilhão de anos de idade.
A teoria emergente sugere que os pontos vermelhos são berçários cósmicos, onde nuvens de gás colapsam diretamente em buracos negros, sem passar pela fase de formação estelar. O núcleo gravitacional devora a nuvem de dentro para fora, aquecendo o gás ao ponto de fazê-lo brilhar intensamente, enquanto jatos magnéticos lançam matéria em direções opostas.
Raphael Hviding, pesquisador do Instituto Max Planck de Astronomia (Alemanha) e autor principal do estudo, afirmou que a descoberta pode ser a peça que faltava para compreender a evolução das primeiras galáxias. Segundo ele, os modelos teóricos sempre esbarraram na dificuldade de explicar como buracos negros supermassivos surgiram tão cedo na história do universo, mas os pontos vermelhos oferecem uma resposta plausível.
Diferente dos buracos negros maduros, que emitem radiação detectável, o gás espesso ao redor desses objetos deveria absorver a maior parte das emissões de raios-X. No entanto, o sinal captado pelo Chandra sugere que brechas na nuvem permitem que parte da energia escape, revelando a presença do motor central em ação.
Hanpu Liu, também da Universidade de Princeton, destacou que a confirmação desse mecanismo transitório fornece a evidência mais robusta já registrada sobre o crescimento acelerado dos buracos negros primordiais. Para os cientistas, cada ponto vermelho é uma máquina do tempo, permitindo observar o universo como ele era bilhões de anos atrás, quando as primeiras estruturas cósmicas começavam a se formar.
A descoberta não apenas ilumina os primeiros capítulos da história cósmica, mas também reforça o papel do James Webb como ferramenta indispensável para desvendar os mistérios do universo. Com sua capacidade de enxergar além das limitações ópticas, o telescópio continua a redefinir os limites do conhecimento humano, revelando que o cosmos é muito mais estranho e fascinante do que se imaginava.
Os pontos vermelhos, antes considerados meras anomalias, agora se consolidam como peças-chave para entender a formação das galáxias e a evolução dos buracos negros. Se a teoria for confirmada, esses objetos poderão ser catalogados como as estruturas mais antigas e poderosas já observadas pela ciência, desafiando as fronteiras do que se acreditava possível no universo primordial.
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