China pressiona Conselho da ONU a manter força de paz no Líbano em meio a novos bombardeios

Veículos da UNIFIL patrulham uma rua no Líbano em meio à escalada do conflito. (Foto: aljazeera.com)

O embaixador da China na ONU, Fu Cong, cobrou publicamente que o Conselho de Segurança reveja a decisão que encerra a Força Interina das Nações Unidas no Líbano até dezembro, advertindo que a retirada agravaria o conflito às margens da fronteira israelense. Em conversa com jornalistas na sede das Nações Unidas, Fu afirmou que o cessar-fogo proclamado não passa de um ‘fogo brando’ porque Israel mantém ataques aéreos diários e o Hezbollah responde com foguetes e drones, cenário que, a seu ver, inviabiliza qualquer desmobilização.

A posição chinesa ganha peso porque Pequim assumiu a presidência rotativa do Conselho neste mês, o que lhe permite pautar debates e pressionar pela publicação, em junho, do relatório do secretariado sobre o futuro da missão. Fu sustentou que a ‘maioria esmagadora’ dos quinze membros considera prematuro esvaziar a operação, criada em 1978 para monitorar a retirada israelense e ampliada em 2006 para garantir uma zona desmilitarizada entre as partes.

O apelo ocorre num momento em que a Força Interina, conhecida pela sigla UNIFIL, perdeu ao menos seis capacetes-azuis desde o recrudescimento dos combates em março, entre eles militares da Indonésia e da França. Segundo dados do governo libanês, as incursões israelenses iniciadas em 2 de março já mataram 2.618 civis e forçaram mais de um milhão de pessoas a abandonar vilarejos localizados ao sul do país.

Além de patrulhar a chamada Linha Azul, a UNIFIL apoia o Exército libanês na remoção de minas e garante corredor seguro para comboios logísticos, tarefas que, de acordo com o secretário-geral da ONU, António Guterres, se tornaram ainda mais arriscadas diante dos bombardeios. Mesmo assim, o Conselho aprovou por unanimidade no ano passado um calendário que prevê a saída gradual dos 10.800 militares estrangeiros até o fim de 2026, decisão agora contestada por Pequim.

Para o diplomata chinês, manter o contingente é ‘incumbência de Israel’, que deveria cessar as ações ofensivas contra território libanês em vez de pressionar pela retirada da força de paz. A postura reflete o engajamento maior da China no Oriente Médio, onde o país mediou a reaproximação entre Irã e Arábia Saudita e defende fóruns multilaterais como antídoto para o que chama de ‘unilateralismo militar’ de Washington e de seus aliados.

Autoridades libanesas saudaram o posicionamento, argumentando que a presença dos capacetes-azuis fornece uma barreira simbólica contra a expansão do conflito de Gaza para o norte e atenua o risco de êxodo humanitário ainda maior. Israel, por sua vez, alega agir em legítima defesa e acusa o Hezbollah de instalar bases avançadas em aldeias fronteiriças, tese que encontra ceticismo entre diplomatas que veem nas missões da ONU elemento crucial de dissuasão.

Especialistas ouvidos por agências internacionais apontam que o recuo da UNIFIL libertaria espaço aéreo e terrestre para operações mais extensas, reduzindo ainda mais o prazo de alerta das populações civis sobre ataques de mísseis. Dentro do Conselho, a expectativa é de que Estados Unidos, Reino Unido e França tentem condicionar qualquer mudança de cronograma a garantias de que Beirute contenha o Hezbollah, enquanto Rússia e Argélia tendem a alinhar-se ao pedido chinês de manutenção imediata.

A discussão sobre o futuro da força de paz expõe a disputa entre dois modelos de segurança regional, o que prioriza tropas da ONU como tampão diplomático e o que aposta em supremacia militar israelense sob apoio indireto de Washington. Ao abrir o mês de trabalho, Pequim sinaliza que fará do dossiê libanês teste de fogo para sua ênfase na multipolaridade, confiando que, com a divulgação do relatório previsto para junho, poderá reunir votos suficientes para suspender ou anular o plano de retirada, como relatou o site Al Jazeera.

Se prevalecer a linha chinesa, a missão ganha sobrevida e reforça o argumento de que potências emergentes conseguem moldar agendas sensíveis da paz e segurança, contrariando a tradicional influência ocidental nas votações mais explosivas do Conselho. Já se Washington mantiver coesão com Paris e Londres para acelerar a retirada, o vácuo operacional tende a deslocar a ONU para um papel meramente humanitário, reeditando impasses que precederam conflitos maiores no passado recente do Oriente Médio.


Leia também: ONU planeja manter presença no Líbano após o encerramento da Unifil


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