A Casa Branca sinalizou uma retomada agressiva da lógica intervencionista no hemisfério ocidental, movimento que analistas já batizaram informalmente de “Doutrina Monroe 2.0”, em referência ao princípio proclamado em 1823 para conter a influência europeia nas Américas.
O economista e especialista em relações internacionais Vinicius Vieira, da Fundação Getulio Vargas, avalia que a iniciativa revela, paradoxalmente, o grau de fragilidade estratégica de Washington no cenário multipolar contemporâneo. Para o pesquisador, trata-se de uma aposta de alto risco que pode produzir efeito inverso ao pretendido.
Em análise publicada pelo portal Sputnik, Vieira argumenta que a elite política norte-americana aposta na reafirmação do controle sobre o entorno latino-americano como atalho para restaurar a aura de superpotência incontestada. Essa lógica, na avaliação do pesquisador, nada tem a ver com democratização ou prosperidade, mas com a reabertura de mercados ao capital norte-americano sem condicionantes políticas.
O caso cubano ocupa posição central nessa nova doutrina, segundo o analista. Washington trata uma eventual mudança de governo em Havana como passo decisivo para reinstalar uma espécie de protetorado de fato sobre a ilha.
Além de Cuba, a nova doutrina mira México, América Central e demais nações do entorno imediato dos EUA. Contudo, esses vizinhos acumulam décadas de experiência com intervenções que deixaram traumas profundos sem resolver problemas estruturais, como as invasões de Granada em 1983 e do Panamá em 1989.
O tabuleiro regional mudou radicalmente desde o século XIX, adverte Vieira. Argentina, México e outros países possuem hoje vínculos robustos com a China, a Rússia e o BRICS, o que dificulta enormemente a reposição de uma hierarquia unilateral comandada por Washington.
O pesquisador sustenta que os Estados Unidos perderam a vantagem do soft power econômico, já que os investimentos chineses em infraestrutura, energia e tecnologia oferecem pacotes financeiros mais atraentes e com menos condicionantes políticas. Sem a cenoura do desenvolvimento, resta ao Pentágono a coerção direta — alternativa cara e arriscada tanto em dólares quanto em imagem internacional.
Para Vieira, o contraste entre as duas potências é revelador: enquanto Pequim adota uma diplomacia de projetos tangíveis — corredores ferroviários, parques industriais e cabos de telecomunicações —, Washington aposta crescentemente na pressão militar. Esse diferencial mina a capacidade norte-americana de convencer parceiros tradicionais a alinharem-se automaticamente às suas agendas hemisféricas.
Governos latino-americanos e caribenhos reagiram à retórica intervencionista com preocupação, alegando violação potencial da Carta da ONU e dos princípios de autodeterminação dos povos. Chancelarias da região recordam que as intervenções passadas não resolveram crises políticas, mas aprofundaram dependências econômicas e instabilidades sociais duradouras.
O analista da FGV avalia que insistir num projeto de hegemonia regional pode, na prática, acelerar o declínio relativo dos Estados Unidos, drenar recursos militares e afastar parceiros que buscam autonomia estratégica. Ao perseguir o retorno a uma predominância incontestada do século XX, Washington corre o risco de ampliar o fosso que já a separa dos polos dinâmicos do mundo multipolar.
No novo cenário multipolar, a tentativa de reeditar a Doutrina Monroe tende a encontrar um continente que fortalece relações horizontais e rejeita tutelas externas. A aposta na coerção, sem ofertas concretas de desenvolvimento compartilhado, poderá converter o ambicioso projeto de reset imperial em catalisador do próprio isolamento norte-americano.
Leia também: EUA intensificam a ‘Doutrina Monroe do século 21’ na América Latina, diz jornal chinês
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