Um campo agrícola na região leste da Noruega acaba de devolver à superfície o maior tesouro em moedas da Era Viking já catalogado no país, reunindo até agora 2.970 peças de prata em estado de conservação raro.
A descoberta é considerada “única em toda uma carreira” pela arqueóloga do condado de Innlandet May-Tove Smiseth. Ela supera o recorde estabelecido em 1836 pelo espólio de Arstad, que continha 1.850 moedas.
O achado começou quando os detectoristas de metais Rune Sætre e Vegard Sørlie localizaram 19 moedas espalhadas na plantação. Cientes da legislação norueguesa que protege bens arqueológicos, acionaram imediatamente as autoridades.
Equipes oficiais iniciaram escavações no mesmo dia e, em poucas horas, encontraram outras 50 peças. Nas semanas seguintes, o número saltou para centenas e agora se aproxima da marca de 3.000 unidades, com expectativa de novos incrementos conforme o solo seja peneirado.
Conforme reportagem do Smithsonian Magazine, as moedas remontam ao período de 980 a 1047. Trazem inscrições de governantes como Cnut, o Grande, que controlou Inglaterra, Dinamarca e Noruega, e de Aethelred, o Desaconselhado, monarca anglo-saxão marcado por enfrentamentos contra invasores escandinavos.
Boa parte da coleção leva o nome de Harald Hardrada, rei norueguês morto em 1066. Esse detalhe ajuda os numismatas a situarem o enterro do tesouro na virada dos anos 1040, quando Harald implantava a primeira política monetária padronizada do país.
O numismata Svein Harald Gullbekk, do Museu de História Cultural de Oslo, observa que as novas cunhagens substituíram rapidamente as estrangeiras e circularam em todo o reino. O enterramento ocorreu logo no início desse processo, quando a economia ainda misturava moedas locais e importadas.
Além do valor monetário, o conjunto fornece dados sobre rotas de comércio e sobre a mobilidade dos vikings. Entre os séculos VIII e XI, esse povo navegou do mar Cáspio ao litoral do atual Canadá, levando prata, mercadorias e técnicas metalúrgicas para comunidades distantes.
A área onde o tesouro foi escondido funcionava como polo de produção de ferro entre os séculos X e XIII. O arqueólogo Jostein Bergstøl, do mesmo museu, acredita que a bolsa original de couro tenha guardado lucros de alguma transação ligada a essa indústria florescente.
Com o tempo, o couro se desintegrou e sucessivas aragens dispersaram parte das moedas. Isso explica por que trabalhadores rurais jamais as notaram a olho nu, enquanto a tecnologia moderna de detecção magnética se revelou decisiva para o resgate.
O ritual de enterrar patrimônio em momentos de incerteza se repete em vários sítios europeus. Especialistas recordam que coleções semelhantes surgem justamente em décadas marcadas por conflitos, disputas sucessórias ou ameaças de invasão.
No caso norueguês, as tensões posteriores à morte de Olaf II e a consolidação do poder de Harald Hardrada podem ter levado comunidades locais a ocultar suas reservas de prata. O plano seria recuperá-las quando a ordem política se estabilizasse.
O passo seguinte será a limpeza individual, a catalogação fotográfica e a análise metalográfica das quase 3.000 moedas. Segundo Smiseth, o processo ainda levará meses, mas abrirá perspectiva inédita para compreender a economia e a iconografia real no fim da Era Viking.
Quando concluído, o inventário passará a integrar a base de dados pública do Museu de História Cultural. O caso ilustra como a cooperação entre civis, Estado e cientistas multiplica as chances de descobertas transformadoras.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!