Estudo revela peso das trabalhadoras do Entorno no serviço doméstico do DF

Ilustração mostra silhueta de mulher com vassoura, um ônibus e o mapa do Distrito Federal e Entorno. (Foto: metropoles.com)

Um levantamento recente sobre emprego na região de Brasília expõe o peso estrutural que as trabalhadoras do Entorno exercem sobre o funcionamento cotidiano do Distrito Federal. A dinâmica movimenta não apenas a economia local, mas também o debate sobre mobilidade, proteção social e desigualdade regional.

Segundo dados divulgados pelo portal Metrópoles, o estudo produzido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, em parceria com o Dieese, mostra que cerca de 117 mil pessoas atuavam no trabalho doméstico em 2024. Quase metade desse contingente vinha de municípios vizinhos.

O relatório indica que aproximadamente 50 mil trabalhadoras residiam em cidades como Águas Lindas de Goiás, Valparaíso de Goiás e Luziânia, o que representa 42,7% de toda a força de trabalho do setor. Outras 67 mil moravam no próprio Distrito Federal e tinham deslocamentos mais curtos.

Ainda segundo o levantamento, cerca de 35 mil mulheres do Entorno atravessavam diariamente as fronteiras entre estados para trabalhar. Elas incorporam longas viagens a jornadas já exaustivas e a um cenário marcado por salários baixos e vínculos frágeis.

A diarista Tania Dias de Souza, moradora de Valparaíso de Goiás, ilustra esse movimento ao relatar que a diferença salarial entre sua cidade e Brasília pode chegar a quase um salário mínimo. Isso a leva a sair de casa por volta das 6h30 para enfrentar dois ônibus e congestionamentos frequentes.

A rotina faz com que ela chegue ao trabalho entre 8h e 10h, dependendo das condições do trânsito. O custo é de cerca de 23 reais diários apenas para o transporte.

De acordo com o estudo, 99,7% das trabalhadoras que vivem no DF exercem suas atividades perto de casa, o que reforça a desigualdade de mobilidade enfrentada pelas mulheres do Entorno. Muitas delas são mães solo e responsáveis pelo sustento de seus domicílios.

Essa diferença territorial se traduz em desgaste físico e financeiro. Também limita o acesso a direitos básicos e tempo para a vida pessoal e familiar.

Em 2024, o setor contabilizava cerca de 47 mil trabalhadoras com carteira assinada, o equivalente a 40,2% do total, enquanto aproximadamente 50 mil atuavam como diaristas sem vínculo fixo. A informalidade elevada resulta em renda variável e menor acesso a direitos como férias, 13º salário e estabilidade, compondo um quadro que acentua vulnerabilidades sociais e econômicas.

O rendimento médio mensal registrado pelo estudo foi de 1,6 mil reais, com 66 mil trabalhadoras recebendo até um salário mínimo, o que representa 56,7% do total. Entre as mulheres do Entorno, essa proporção sobe para 61,4%, evidenciando um cenário ainda mais duro para quem cruza diariamente as rodovias que conectam Goiás ao Distrito Federal.

Outro ponto crítico identificado no relatório é a baixa contribuição para a Previdência Social, já que mais de 64 mil trabalhadoras, ou 54,8%, não recolhiam para o sistema em 2024. Essa ausência de proteção implica dificuldade de acesso à aposentadoria, ao auxílio-doença e ao salário-maternidade, aprofundando a vulnerabilidade de um grupo que desempenha papel central na sustentação da vida e da rotina das famílias brasilienses.

O estudo também aponta que quase metade das profissionais do setor, cerca de 58 mil mulheres, eram as principais responsáveis pelo sustento de suas casas em 2024, tanto no Distrito Federal quanto no Entorno. A proporção semelhante entre os dois grupos evidencia que o trabalho doméstico, mesmo com baixa remuneração e pouca estabilidade, segue sendo um pilar essencial de renda para milhares de lares.

Nesse contexto, a dependência do DF de uma força de trabalho majoritariamente feminina e proveniente de outras cidades expõe desafios urgentes de mobilidade urbana, políticas de renda e garantia de direitos. A combinação de longos trajetos, remuneração reduzida e baixa proteção social reforça desigualdades históricas e aponta para a necessidade de abordagens mais amplas de planejamento regional.

O levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal e do Dieese evidencia que o serviço doméstico, ainda invisibilizado em muitas discussões públicas, permanece como atividade essencial para a organização da vida urbana e para a economia do Distrito Federal. Ao mesmo tempo, revela que essa engrenagem só funciona graças ao esforço diário de milhares de mulheres que sustentam tanto suas próprias famílias quanto o funcionamento dos lares em Brasília.


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