Ex-diplomata chinês denuncia bloqueio americano ao avanço tecnológico de nações em desenvolvimento

Caricatura mostra o Tio Sam construindo um muro tecnológico enquanto o "Sul Global" tenta abrir uma porta. (Foto: scmp.com)

Zhou Xiaoming, ex-representante adjunto da China na ONU em Genebra, acusa os Estados Unidos de usar patentes, sanções e pressões diplomáticas para frear o desenvolvimento tecnológico de nações emergentes e mantê-las subordinadas na cadeia global de valor.

Atualmente pesquisador no Centro para a Globalização em Pequim, Zhou afirma que Washington não busca uma competição justa. Ele descreve o comportamento americano como uma tentativa de derrubar rivais em vez de enfrentá-los em igualdade de condições.

Em artigo publicado no South China Morning Post, Zhou detalha como os EUA bloqueiam exportações de semicondutores avançados e exigem cadeias de suprimento restritas a aliados. Competidores também são excluídos de fóruns que definirão padrões para tecnologias como o 6G.

Para o ex-diplomata, essas ações configuram um monopólio tecnológico que prioriza o controle sobre o progresso coletivo da humanidade. Ele aponta a agricultura como exemplo claro de exclusão sistêmica.

Fazendeiros da América Latina e da África pagam royalties elevados por sementes geneticamente modificadas a corporações americanas. Essas licenças, fixadas em dólares, perpetuam uma dependência econômica estrutural.

Zhou compara esse modelo a uma estrutura colonial moderna, que limita o acesso de nações em desenvolvimento a conhecimentos essenciais. Segundo ele, isso dificulta a industrialização local e força a importação de produtos caros, minando a autonomia dessas economias.

A Casa Branca intensificou medidas restritivas, como a proibição de empresas chinesas de adquirirem softwares de design de chips e a imposição de tarifas sobre painéis solares asiáticos. Também cortou o fornecimento de máquinas de litografia extrema, fabricadas na Holanda, a fábricas fora do bloco ocidental.

Em resposta, Pequim tem investido em programas de substituição tecnológica. Zhou alerta, porém, que países com menos recursos não possuem alternativas viáveis e acabam obrigados a comprar produtos acabados dos mesmos conglomerados que detêm as patentes.

O analista menciona debates em fóruns internacionais, como a cúpula do G20 em Nova Délhi, onde ministros africanos reivindicaram transferência efetiva de tecnologia em vez de financiamentos que perpetuem subordinação. Zhou critica que tais demandas foram enfraquecidas no comunicado final sob pressão de potências ocidentais lideradas pelos EUA.

Como solução, o ex-diplomata sugere que plataformas multilaterais, como o BRICS ampliado, criem fundos para licenciar patentes de código aberto. Isso permitiria a universidades do Hemisfério Sul desenvolverem soluções locais sem o risco de litígios em tribunais norte-americanos.

Zhou lembra que a Organização Mundial do Comércio prevê flexibilizações de propriedade intelectual em situações de emergência. Ele acusa Washington de usar seu peso econômico para impedir que essas exceções se apliquem a setores estratégicos como telecomunicações quânticas ou vacinas de mRNA.

Por fim, o pesquisador defende que a construção de um regime tecnológico multipolar exige coordenação política e investimentos conjuntos em pesquisa. Ele chama atenção para a necessidade de desmantelar o que descreve como uma ‘barreira invisível’ que exclui grande parte da humanidade da próxima revolução industrial.


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