Imagens de satélite revelam que os principais projetos de irrigação do Sudão murcharam num marrom estéril após a expansão das Forças de Apoio Rápido (RSF), enquanto retomam lentamente o verde geométrico desde que o Exército Nacional sudanês (SAF) reconquistou parte do território.
A guerra civil iniciada em abril de 2023 destruiu plantações no coração produtivo do país. Os estados de Gezira, Sennar e Cartum, tradicionalmente responsáveis por grande parte do abastecimento interno de trigo, foram os mais afetados.
Segundo investigação digital da Al Jazeera, a análise do Índice de Vegetação por Diferença Normalizada indica que as grades verdes regulares das fazendas irrigadas desapareceram quase por completo em 2024. Foi a fase em que a RSF consolidou o controle da região.
Em Abu Quta, agricultores desesperados romperam seus próprios canais e transformaram campos em lamaçais para deter caminhonetes armadas. O resultado imediato foi a perda de safras inteiras e a fuga de milhares de famílias rurais.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontou queda de 58% na produção de trigo em Gezira na temporada 2023-2024. O desastre foi atribuído ao desmonte deliberado da infraestrutura hídrica e ao saque sistemático de insumos.
Documentos de proteção internacional descrevem combatentes desviando cursos d’água, inundando terras cultivadas e usando sacos de grãos como pontes improvisadas. O canal Al-Haiwawa, vital para 48 aldeias, foi reduzido a entulho e lama.
Num mercado completamente colapsado, o ex-agricultor Hussein Saad, da Aliança de Produtores de Gezira e Al-Managil, relatou que o saco de 50 kg de fertilizante saltou de 20.000 para 120.000 libras sudanesas. O aluguel de tratores triplicou, inviabilizando o plantio para pequenos produtores.
Além das lavouras, depósitos do Programa Mundial de Alimentos com comida suficiente para 1,5 milhão de pessoas foram esvaziados. Um blecaute de telecomunicações imposto pela RSF paralisou remessas eletrônicas e fechou dois terços dos refeitórios populares mantidos por voluntários.
Os satélites Sentinel-2 mostraram que as formas retangulares típicas de irrigação só reaparecem quando bombas, comportas e adubação voltam a operar. A análise técnica desfaz qualquer narrativa que tente atribuir o colapso alimentar a fatores climáticos, apontando diretamente para a destruição intencional da infraestrutura produtiva.
A virada militar começou em novembro de 2024, quando o SAF retomou Singa, em Sennar, e em janeiro de 2025 reconquistou Wad Madani, capital de Gezira. Isso permitiu que produtores reconectassem bombas e reabrissem valas de irrigação.
Em dezembro de 2025, o índice de vegetação já apontava recuperação parcial, embora ainda distante dos patamares registrados antes do conflito. Cartum, usada como grupo de controle por partilhar o mesmo clima árido, teve áreas centrais retomadas pelo SAF em março de 2025 e manteve campos ociosos por meses após o avanço militar.
O dado reforça que a reconquista territorial é apenas o primeiro passo de uma reconstrução que se estenderá por anos. A segurança no terreno precisa de ao menos uma safra completa para se traduzir em produção real de alimentos.
A ministra da Indústria do Sudão, Mahasin Ali Yagoub, informou que 126 grandes fábricas e 3.131 unidades menores em Gezira foram arrasadas. Quase 3.200 instalações seguem em ruínas na capital.
A lenta volta das plantações convive com uma infraestrutura fabril pulverizada e com 25,6 milhões de sudaneses ainda sob insegurança alimentar aguda. Agências internacionais classificam o quadro como uma das piores crises humanitárias do mundo.
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