Após negociações com o Irã não resultarem em acordo, os Estados Unidos adotaram medidas drásticas na segunda-feira ao bloquear o Estreito de Ormuz, uma artéria crucial para o mercado global de energia.
Especialistas afirmam que, dada a complexidade do estreito e o possível efeito reverso sobre os próprios interesses dos EUA, um bloqueio total pode ser difícil de sustentar. Mesmo assim, essa “ação imprudente” pode aprofundar a turbulência na economia global e aumentar o risco de um novo conflito regional.
Depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter ameaçado no domingo bloquear navios que tentassem entrar ou sair do Estreito de Ormuz, o Comando Central dos EUA informou que as forças norte‑americanas começariam a implementar um bloqueio de “todo o tráfego marítimo entrando e saindo de portos iranianos” na segunda-feira, às 10h do horário da Costa Leste dos EUA (14h GMT).
De acordo com a proclamação de Trump, o bloqueio será aplicado “de forma imparcial” contra embarcações de todas as nações que entrem ou saiam de portos e áreas costeiras iranianas, incluindo “todos os portos iranianos no Golfo Arábico e no Golfo de Omã”, segundo o comunicado.
Na tarde de segunda-feira, o bloqueio dos EUA ao Estreito de Ormuz entrou em vigor.
Em uma coletiva após o início do bloqueio, Trump alertou que os militares dos EUA “eliminarão” qualquer navio iraniano que se aproxime do bloqueio no Estreito de Ormuz.
O bloqueio adiciona mais um obstáculo a uma rota marítima vital já afetada pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.
A agência semioficial iraniana Tasnim afirmou na segunda-feira que o bloqueio dos EUA ao Estreito de Ormuz “não é apenas uma escalada geopolítica, mas um ato imprudente que ameaça sufocar a economia global, com os consumidores americanos arcando com o impacto”.
Enquanto os Estados Unidos buscam pressionar o Irã ao bloquear o estreito para obter concessões sobre temas como a reabertura de Ormuz, especialistas dizem que um bloqueio completo é improvável de ser viável ou sustentável.
Os EUA provavelmente dependerão do reforço de sua presença naval, da intensificação das operações de monitoramento e inspeção e possivelmente da imposição de “restrições seletivas” ao movimento de determinadas embarcações, afirmou Abdulaziz Alshaabani, pesquisador saudita do Centro Al Riyadh de Estudos Políticos e Estratégicos.
“No entanto, é improvável que o bloqueio naval seja completo ou absolutamente eficaz, dadas as complexidades das rotas marítimas e o entrelaçamento de interesses internacionais”, acrescentou Alshaabani.
Mohammed Al-Jubouri, professor da Universidade al-Iraqia em Bagdá, concorda com a avaliação.
“O Irã não precisa enfrentar diretamente a frota dos EUA para minar o bloqueio”, disse Al-Jubouri. “Basta que Teerã empregue táticas envolvendo embarcações de ataque rápido, minas navais, baterias de mísseis costeiros ou até ataques por procuração em outras partes da região. Essas ferramentas podem transformar qualquer bloqueio em uma longa guerra de desgaste.”
Abu Bakr al-Deeb, assessor do Centro Árabe de Pesquisa e Estudos, com sede no Cairo, argumenta que um bloqueio completo pode acabar prejudicando os próprios Estados Unidos e trabalhando contra seus interesses.
“Os Estados Unidos podem impor controle temporário ou parcial, mas enfrentariam enorme dificuldade para transformar esse controle em um bloqueio estável e de longo prazo sem incorrer em custos políticos e econômicos significativos”, afirmou.
Mesmo que um bloqueio prolongado possa estar além da capacidade de Washington, a medida certamente enviará novos choques a um mercado global de energia já abalado pelas tensões EUA-Irã e pode colocar em risco o frágil cessar‑fogo entre Estados Unidos, Israel e Irã, elevando a possibilidade de um novo conflito.
Al-Deeb afirmou que um bloqueio de um estreito tão vital quanto Ormuz não pode permanecer um “assunto puramente americano” em termos de impacto, acrescentando que “a economia global, particularmente a Ásia e a Europa, sofreria danos imediatos e diretos”.
Após o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã em 28 de fevereiro, os preços do petróleo Brent já haviam disparado, superando US$ 120 por barril no início de abril.
O petróleo poderia subir para US$ 150 por barril sob um bloqueio dos EUA ao Estreito de Ormuz, afirmou Jorge Montepeque, diretor‑gerente da Onyx Capital Group, sediada no Reino Unido, à Bloomberg.
Acredita-se também que o bloqueio aumente o risco de retomada das hostilidades entre Washington e Teerã, potencialmente minando o cessar‑fogo acordado na semana anterior.
“A insistência dos EUA e a falta de flexibilidade em relação à navegação no Estreito de Ormuz… revelam a intenção de Washington de usar essas questões como pretexto para lançar novos ataques”, disse Al-Jubouri.
A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) prometeu usar novas capacidades militares caso a guerra com os Estados Unidos e Israel continue.
“Ainda não usamos nossas capacidades, e se a guerra continuar, revelaremos capacidades das quais o inimigo não faz ideia”, afirmou o porta-voz da IRGC, Hossein Mohebbi, após o bloqueio entrar em vigor.
Fonte: CGTN World