Nódulos abissais a 4.000 metros revelam ‘oxigênio escuro’ e acirram disputa geopolítica no Pacífico

Nódulo polimetálico com brilho esverdeado em fundo escuro. (Foto: popularmechanics.com)

Entre o Havaí e a costa oeste do México, repousa um enigma abissal conhecido como Zona Clarion-Clipperton (CCZ), uma planície de 4,5 milhões de quilômetros quadrados. Este vasto e escuro território oceânico é mais do que um ecossistema vibrante; é o epicentro de uma cobiça geopolítica crescente por seus nódulos polimetálicos.

Dispersos pelo leito marinho como batatas de pedra, esses nódulos, potencialmente na casa dos trilhões, contêm depósitos ricos de níquel, manganês, cobre, zinco e cobalto. Tais metais são considerados vitais para as baterias da chamada transição energética verde, levando corporações de mineração a apelidá-los de ‘uma bateria numa rocha’.

A The Metals Company, uma das mais vocais proponentes da mineração submarina, argumenta que a extração desses nódulos possui uma pegada de carbono significativamente menor em comparação com a mineração terrestre. A corporação, sediada no Canadá, afirma que o processo evitaria o desmatamento, a contaminação de lençóis freáticos e a geração de resíduos tóxicos que assolam as operações em terra.

Contudo, um estudo publicado em julho de 2024 na prestigiada revista Nature Geoscience revela que esses aglomerados rochosos são muito mais do que um mero repositório de materiais valiosos. Eles são capazes de produzir oxigênio a 4.000 metros abaixo da superfície, onde a luz solar jamais penetra.

Esta inesperada fonte de ‘oxigênio escuro’, como foi batizada, redefine drasticamente o papel dos nódulos na CCZ. A descoberta pode reescrever o roteiro não apenas de como a vida começou neste planeta, mas também de seu potencial para florescer em outros mundos do nosso Sistema Solar, como as luas Encélado ou Europa.

Andrew Sweetman, ecólogo de águas profundas da Associação Escocesa para a Ciência Marinha e autor principal do estudo, afirmou que para a vida aeróbica começar, o oxigênio era essencial. ‘Nossa compreensão era que o suprimento de oxigênio da Terra começou com organismos fotossintéticos, mas agora sabemos que há oxigênio produzido no mar profundo, onde não há luz’, declarou ele em comunicado.

A jornada para esta revelação começou há mais de uma década, quando Sweetman analisava os níveis decrescentes de oxigênio nas profundezas oceânicas. Foi uma surpresa colossal quando, em 2013, seus sensores retornaram níveis crescentes de oxigênio na CCZ, um dado que ele inicialmente descartou como falha de equipamento.

Intrigado com o apelido de ‘bateria numa rocha’, Sweetman começou a se perguntar se os minerais nos nódulos não estariam agindo como uma espécie de ‘geobateria’. Essa bateria natural, por sua vez, separaria hidrogênio e oxigênio através de um processo de eletrólise da água do mar.

Embora um estudo de 2023 tenha mostrado que várias bactérias e arquéias podem criar ‘oxigênio escuro’, a equipe de Sweetman foi além. Eles recriaram as condições da CCZ em laboratório e eliminaram quaisquer microrganismos com cloreto de mercúrio, e para espanto geral, os níveis de oxigênio continuaram a subir.

A investigação minuciosa de Sweetman encontrou uma voltagem de aproximadamente 0,95 volts na superfície desses nódulos, suficiente para dividir a água do mar. Essa carga natural é provavelmente acumulada à medida que os nódulos crescem com diferentes depósitos minerais se formando de maneira irregular ao longo de milênios.

Esta forma de produção de oxigênio sem luz, impulsionada puramente por reações geoquímicas, oferece um modelo plausível para o surgimento da vida em ambientes extremos. Astrobiólogos agora consideram que processos semelhantes poderiam estar ocorrendo sob as crostas de gelo de luas como Europa, de Júpiter, ou Encélado, de Saturno, onde oceanos líquidos podem existir em total escuridão.

Esta descoberta adiciona mais combustível a um debate já incandescente sobre o destino desses tesouros abissais. De um lado, empresas de mineração como a já citada The Metals Company veem os nódulos como a resposta para os problemas energéticos da humanidade.

Do outro lado, uma coalizão de 25 países exige que o órgão regulador, o Conselho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), implemente uma moratória ou, no mínimo, uma pausa preventiva. O objetivo é permitir que mais pesquisas sejam conduzidas para avaliar os impactos devastadores que a mineração em alto mar poderia causar.

O impasse dentro da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos reflete uma profunda fratura global, opondo nações industrializadas, ávidas por recursos, a um bloco crescente de países que inclui Alemanha, França, Espanha, Chile e Brasil. Este último grupo defende o princípio da precaução, argumentando que o patrimônio comum da humanidade não pode ser sacrificado no altar de interesses comerciais de curto prazo.

Este apelo por cautela é especialmente vital, considerando que os mares do mundo já enfrentam uma série de desafios climáticos graves. A acidificação, a desoxigenação e a poluição plástica já estão empurrando os ecossistemas marinhos para um ponto de ruptura.

Os críticos da mineração alertam que as operações de dragagem no fundo do mar levantariam plumas de sedimentos que poderiam viajar por quilômetros, sufocando organismos e alterando a química da água em vastas áreas. Além da destruição direta do habitat, a poluição sonora e luminosa gerada pelas máquinas perturbaria ecossistemas que evoluíram na escuridão e no silêncio por milhões de anos.

Em resposta à descoberta, Lisa Levin, da renomada Instituição de Oceanografia Scripps, que não esteve envolvida no estudo, ressaltou por que uma moratória é tão importante. ‘Este é um excelente exemplo do que significa ter o oceano profundo como uma fronteira, uma parte relativamente inexplorada do nosso planeta’, comentou ela à Coalizão de Conservação do Mar Profundo.

Conforme publicado pelo portal Popular Mechanics, Levin complementou que a produção de oxigênio no fundo do mar pelos nódulos polimetálicos é uma função ecossistêmica inteiramente nova. Tal função precisa ser urgentemente considerada ao avaliar o impacto da mineração em águas profundas.

O futuro dos oceanos do mundo se aproxima de um momento crítico, uma encruzilhada entre conservação e exploração predatória. A balança pende perigosamente entre a sabedoria de preservar o desconhecido e a pressa de devorá-lo em nome de um progresso insustentável.

A revelação sobre o oxigênio abissal reforça uma premissa fundamental: a perturbação de ecossistemas complexos e pouco compreendidos pode ter consequências que nem sequer conseguimos imaginar. Mexer nesses mecanismos delicados, forjados ao longo de eras geológicas, pode desencadear cascatas de efeitos imprevisíveis para a vida na Terra.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.