O Sudão enfrenta uma das piores crises humanitárias do planeta em decorrência do conflito entre as Forças de Suporte Rápido e o Exército Sudanês. O confronto já resultou em mais de 150 mil mortes desde 2023, das quais mais de 61 mil ocorreram por ferimentos diretos entre abril de 2023 e junho de 2024.
O líder das Forças de Suporte Rápido, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, e o comandante do Exército Sudanês, Abdel Fattah al-Burhan, sinalizaram a possibilidade de o conflito durar décadas. Essa perspectiva amplia o sofrimento da população e acelera o colapso das instituições do país.
O representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Sudão, Luca Renda, descreveu o prolongamento da guerra como escalada da economia do sofrimento. Cerca de 15 milhões de pessoas foram deslocadas, enquanto 24 milhões enfrentam insegurança alimentar grave.
Outros 19 milhões de sudaneses não possuem acesso a água potável e saneamento básico. O sistema de saúde entrou em colapso, com até 80% das instalações em zonas de conflito totalmente fora de operação.
O impacto econômico revela-se dramático segundo projeções do relatório conjunto do PNUD e do Instituto de Estudos de Segurança. Caso a guerra se estenda até 2030, o PIB do Sudão em 2043 será 34,5 bilhões de dólares inferior ao cenário sem conflito, conforme o relatório do PNUD.
A pobreza extrema pode superar 60% da população e atingir 34 milhões de pessoas. A queda de 1.700 dólares na renda per capita representa, para muitas famílias, a linha entre conseguir se alimentar ou cair na fome.
Apenas 25% dos hospitais em Cartum permanecem operacionais e as doenças não transmissíveis registram forte alta no número de óbitos. A mortalidade infantil deve piorar e colocar o Sudão entre os piores países africanos de baixa renda em indicadores de saúde até 2043.
O setor de educação registra perdas profundas, com quase 19 milhões de crianças fora da escola. Somente 20% das escolas seguem abertas em todo o território nacional.
O deslocamento em massa de professores e profissionais de saúde desestrutura as comunidades locais. Renda advertiu que essa dinâmica remove as pessoas de seus lares e torna muito mais difícil qualquer processo de reconstrução nacional.
Em cenário de paz com reformas estruturais, o PIB poderia alcançar 58,2 bilhões de dólares até 2043. O crescimento médio atingiria 5% ao ano e retiraria 17,3 milhões de pessoas da pobreza extrema.
Renda defendeu que a conquista da paz, aliada ao investimento em reconstrução, oferece razões de peso para evitar consequências permanentes. A médica especialista em medicina comunitária Athar Abdalla Mohamed alertou que os efeitos da guerra podem se estender por gerações.
Athar Abdalla Mohamed defendeu a necessidade de medidas imediatas para preservar serviços essenciais como saúde e educação. O futuro do Sudão depende da manutenção dessas redes antes que a degradação se torne ainda mais profunda.
O país conta com reservas expressivas de petróleo, ouro e terras férteis de alto potencial agrícola. A guerra impede o aproveitamento desses recursos e distancia ainda mais a população do acesso efetivo a eles.
A superação da crise exige cessar-fogo duradouro e coordenação internacional efetiva. Somente com estabilidade política será possível retomar o caminho de recuperação econômica e social no Sudão.
Com informações de Al Jazeera.
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