Nau genovesa afundada por Francis Drake é identificada na Baía de Cádiz

Ilustração editorial sobre Nau genovesa afundada por Francis Drake é identificada na Baía de Cádiz. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Mais de quatro séculos após o ousado ataque do corsário inglês Sir Francis Drake ao porto espanhol de Cádiz, arqueólogos identificaram os restos de uma de suas vítimas. Trata-se do navio San Giorgio e Sant’Elmo Buonaventura, uma embarcação mercante genovesa que sucumbiu durante a histórica investida de 1587, conhecida como ‘o chamuscar da barba do rei da Espanha’.

A descoberta foi confirmada por uma equipe multidisciplinar do Instituto Andaluz do Patrimônio Histórico (IAPH), que analisou os destroços inicialmente encontrados em 2012 durante operações de dragagem no porto de Cádiz. O navio, que estava em uma missão estatal ordenada por Filipe II da Espanha, transportava suprimentos militares e canhões de bronze destinados à Armada Espanhola, que se preparava para invadir a Inglaterra.

Entre 29 de abril e 1º de maio de 1587, Drake liderou uma esquadra inglesa em um ataque preventivo contra a frota espanhola, atrasando os planos de invasão por um ano crucial. O San Giorgio, parte da intrincada rede logística montada por Filipe II, foi uma das 30 a 35 embarcações destruídas na ofensiva, que visava enfraquecer a força naval espanhola.

Os restos do San Giorgio repousam sob oito metros de lama, um ambiente anaeróbico que preservou de forma extraordinária materiais orgânicos que normalmente se deteriorariam na água salgada. Essa camada de sedimentos protegeu o casco, tornando-o um dos achados mais bem preservados da arqueologia subaquática.

As escavações revelaram um tesouro de artefatos que refletem as complexas redes de comércio do século XVI. Entre os itens recuperados, destacam-se barris de madeira contendo uma substância vermelha densa, identificada como carmim extraído do inseto Dactylopius coccus, nativo do México e altamente valorizado na Europa pela produção de tintas escarlates para tecidos de luxo.

Análises dendrocronológicas indicam que os barris eram feitos de carvalho báltico cortado entre 1586 e 1601, confirmando a cronologia do naufrágio. Além disso, foram encontrados potes de cerâmica lacrados com alimentos como azeitonas, alcaparras, folhas de louro, alecrim e orégano, além de gengibre e madeira de guaiaco provenientes das Américas.

O naufrágio também revelou aspectos humanos e trágicos do evento. Entre os restos mortais recuperados, foi encontrado o crânio de uma jovem mulher, com idade estimada entre 25 e 35 anos, que apresentava uma fratura perimortem compatível com o impacto de um projétil ou objeto cortante.

Estudos paleobiológicos identificaram ainda ossos de gado, porcos, caprinos e aves, oferecendo pistas sobre a dieta e o abastecimento da tripulação. O San Giorgio, antes apenas uma peça em um jogo de poder imperial, agora emerge como um elo entre mundos marítimos, comerciais e militares do final do século XVI.

A descoberta não apenas lança luz sobre a logística da Armada Espanhola, mas também revela as conexões globais que moldaram a história. Conforme relatado pelo portal Ancient Origins, o achado oferece uma rara e tangível janela para um período de intensas rivalidades e trocas entre continentes.


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