Chuvas no Atlântico bloqueiam nutrientes africanos para a Amazônia

Rio cercado por densa vegetação na Amazônia brasileira. (Foto: phys.org)

Um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters revelou uma conexão atmosférica surpreendente entre o Oceano Atlântico e a floresta amazônica.

Pesquisadores identificaram que chuvas intensas no Atlântico tropical impedem que partículas de aerossóis provenientes da África, ricas em minerais essenciais, cheguem ao solo da Amazônia. Esse bloqueio impacta diretamente o ciclo de nutrientes da região.

Os aerossóis — compostos por poeira do deserto do Saara e partículas de queimadas africanas — desempenham papel crucial no equilíbrio ecológico da floresta. Apesar de sua grande biodiversidade, os solos amazônicos são pobres em nutrientes devido ao intenso processo de lixiviação causado pelas chuvas tropicais.

Elementos como fósforo, cálcio e magnésio transportados por essas partículas são fundamentais para a produtividade da floresta e para a vida nos oceanos. O professor Luiz Augusto Toledo Machado, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), liderou a pesquisa em colaboração com o Instituto Max Planck, na Alemanha.

Machado explicou que a interação entre sistemas meteorológicos de grande escala determina o transporte desses aerossóis. As mudanças climáticas estão alterando esse padrão, e as consequências para os ecossistemas futuros ainda são incertas.

Dias de ar limpo na Amazônia, com menor presença de partículas africanas, coincidem com picos de precipitação no Atlântico tropical. Esse fenômeno está associado a sistemas de alta pressão no sul do Atlântico e a incursões de ar frio que intensificam os ventos de baixa altitude.

Esses fatores promovem maior umidade na região amazônica durante certos períodos. Em contrapartida, em épocas de menor precipitação no Atlântico, os aerossóis conseguem atravessar a atmosfera e alcançar o continente sul-americano.

Para realizar a pesquisa, os cientistas utilizaram dados diários de carbono negro — um indicador de transporte de partículas a longas distâncias — coletados pelo Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO). Localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no estado do Amazonas, a torre de 325 metros monitora continuamente variáveis meteorológicas, químicas e biológicas.

Entre 2015 e 2022, os pesquisadores analisaram os níveis médios diários de carbono negro durante os meses de janeiro e fevereiro, que marcam o início da estação chuvosa na Amazônia. Observaram uma significativa variabilidade nas concentrações, com alguns dias registrando altos níveis de partículas africanas e outros apresentando condições de ar excepcionalmente limpo.

Mapas gerados com inteligência artificial ajudaram a identificar os padrões de precipitação e transporte de partículas ao longo do tempo. Essa análise permitiu classificar os dias como úmidos ou secos de acordo com as condições observadas.

Machado destacou ainda a importância dos aerossóis africanos para a saúde do planeta como um todo. A poeira do Saara contém minerais essenciais não apenas para a Amazônia, mas também para a vida nos oceanos — incluindo ferro e fósforo, fundamentais para a produtividade florestal e marinha.

Um estudo publicado na revista Nature em 2022 apontou como baixos níveis de fósforo no solo amazônico podem limitar o crescimento da floresta. Essa limitação ocorre mesmo em cenários de maior concentração de dióxido de carbono na atmosfera.

Os resultados reforçam a interdependência entre diferentes regiões do planeta e os impactos das mudanças climáticas nos ciclos naturais. Alterações nos padrões de transporte de partículas podem comprometer a resiliência da Amazônia, um dos principais reguladores climáticos globais.

Como próximo passo, os cientistas planejam estudar os jatos de baixa altitude sobre o Atlântico e a Amazônia. Essa nova fase da investigação busca prever como esses sistemas podem se comportar nas próximas décadas, de acordo com o portal Phys.org.


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