Onda de avistamentos de Bigfoot em Ohio reacende debate centenário sobre criaturas misteriosas

Imagem divulgada por edition.cnn.com

Mike Miller passa as noites nas florestas de Ohio há quase duas décadas, procurando por algo que a maioria das pessoas considera impossível. Benjamin Radford, por sua vez, dedica seu tempo a explicar por que essa busca provavelmente nunca terá sucesso. Ambos falam sobre Bigfoot há anos – mas de pontos de vista radicalmente opostos.

“Quando você ouve algo ou vê algo, aquilo fica com você e se torna parte de você, e você simplesmente não consegue esquecer”, diz Miller, que integra o grupo Ohio Night Stalkers. Radford, folclorista e editor adjunto da revista Skeptical Inquirer, reconhece que “é uma questão fascinante, se essas criaturas existem ou não”.

Mas é praticamente tudo em que concordam quando o assunto é a existência de uma espécie não identificada de gigantes peludos.

A “onda” de março

O debate ganhou novo fôlego em março, quando uma série incomum de relatos – chamada de “flap” pelos entusiastas do Bigfoot – foi catalogada no Condado de Portage, Ohio, a leste de Akron. Testemunhas relataram figuras não identificadas com cerca de 2,4 metros de altura em áreas arborizadas ao longo do rio Mahoning.

“E parou tão rapidamente quanto começou”, afirma Jeremiah Byron, apresentador do Bigfoot Society Podcast, que coletou e mapeou os relatos. Byron especulou que uma mudança nas condições climáticas – do inverno para a primavera – poderia explicar o padrão temporal dos avistamentos.

Para Miller, o caçador, encontrar o Sasquatch é um mistério cuja resposta pode estar em qualquer esquina ou caverna. Para Radford, o cético, é fonte de constante decepção. “Se eles fossem reais, viveriam, respirariam, comeriam, dormiriam e morreriam, e deveríamos ser capazes de encontrar evidências físicas”, argumenta Radford. “Como estariam sendo tão elusivos? Teria que haver milhares deles.”

Décadas de folclore e investigação

O folclore sobre criaturas misteriosas na América do Norte, segundo especialistas, ganhou força mainstream com um artigo de 1960 na revista True, descrevendo uma figura alta e peluda que parecia “parcialmente humana e parcialmente animal”.

O que começou como narrativa evoluiu para buscas mais organizadas, usando tecnologia cada vez mais avançada. A questão ganhou notoriedade em 1967 com o famoso filme gravado por Roger Patterson e Bob Gimlin no Pacífico Noroeste, capturando uma figura peluda caminhando por uma floresta no norte da Califórnia. Décadas de debate se seguiram sobre a autenticidade do filme.

O mistério chegou até o FBI, que concordou em 1976 em examinar 15 amostras de pelos de um suposto encontro com Bigfoot no Oregon. “Esta é uma questão séria que precisa de resposta”, dizia uma carta do diretor do Bigfoot Information Center and Exhibition.

Após análise microscópica, o FBI forneceu sua conclusão: “Concluiu-se que os pelos são de origem da família dos cervos.”

A demanda por respostas só aumentou com a série de TV “In Search Of…”, apresentada por Leonard Nimoy, que incluiu várias histórias sobre Bigfoot. Tanto Byron quanto Radford citam o programa como inspiração para seu interesse em fenômenos inexplicados.

Entre ceticismo e convicção

Os relatos de março seguem padrões de avistamentos anteriores: figuras altas, peludas, marrons ou pretas, com passadas longas e sons únicos, mantendo-se próximas a cursos d’água.

“Muitas pessoas acreditam que eles tentam seguir os sistemas de riachos para se manter fora de vista”, explica Byron.

Miller admite ceticismo inicial sobre a “onda” do nordeste de Ohio. “É bom ser cético”, diz. “Há uma conferência sobre Bigfoot naquela área, e pensei que talvez fosse publicidade.”

Mas após examinar os relatos, Miller se convenceu de que os avistamentos não eram farsa. “As pegadas pareciam legítimas, e algumas pessoas pareciam genuinamente assustadas”, observa.

Byron também não aceita todos os relatos, certificando-se de falar diretamente com as pessoas antes de divulgar suas alegações. Uma vez que a notícia se espalhou, falsificações apareceram. “Comecei a receber muitos relatos gerados por IA. Chegou ao ponto de receber cerca de 1.000 e-mails por dia”, conta.

Humor e seriedade convivem

Acostumados ao ceticismo, muitos caçadores de Sasquatch têm senso de humor sobre seu trabalho. A página do Facebook de Miller apresenta uma renderização em IA dele posando na floresta ao lado do Bigfoot.

A aplicação da lei local também aproveitou a publicidade. O xerife do Condado de Portage, Bruce D. Zuchowski, fez postagens satíricas supostamente mostrando a prisão do Bigfoot, apenas para a criatura escapar na fronteira canadense.

“AVISO: Se você tentar fotografar o Bigfoot, a imagem ficará borrada”, dizia uma postagem.

Apesar da leveza, o escritório do xerife recebeu ligações de residentes preocupados. “Dez pessoas disseram: ‘Sim, eu estava passeando com meu cachorro às 4 da manhã e vi essa figura peluda'”, contou o xerife à afiliada da CNN WOIO em março.

A perspectiva científica

Os relatos recentes ainda não convenceram o cético Benjamin Radford. “Não zombo de pessoas que procuram o Bigfoot. Não menosprezo investigadores”, diz ele. “Minha questão é que eles não estão aplicando metodologia científica rigorosa.”

Embora os entusiastas saibam que arriscam o ridículo, Radford recebe recepção fria quando fala em conferências como “cético simbólico”. “Está claro que os métodos que vocês estão usando não estão produzindo evidências verificáveis”, diz a eles.

Para Radford, o aspecto social – reunir-se, passar uma noite na floresta com câmeras de visão noturna e microfones parabólicos – pode ser a verdadeira atração. “Há paralelos com grupos de caça a fantasmas”, observa. “É sobre sair com amigos, acampar e dizer: ‘Meu Deus, o que foi aquilo?'”

Miller, que trabalha como entregador, diz que seu foco é descobrir o inexplicado. “Não tenho muito tempo livre”, afirma. “Muitas pessoas pensam que saímos bêbados na floresta. Não. Eu não estaria perdendo meu tempo se não acreditasse que há algo para investigar.”

Tecnologia avançada, evidências elusivas

Para os céticos, o maior argumento contra a existência do Bigfoot pode ser a passagem do tempo e os avanços tecnológicos. Apesar de praticamente todos terem câmeras 4K no bolso, nenhuma filmagem clara ou registro esquelético surgiu após décadas de busca.

“Em algum momento, a sorte de um Bigfoot deveria acabar”, escreveu Radford na Skeptical Inquirer.

Enquanto isso, entre florestas de Ohio e debates acalorados, a busca continua – alimentada tanto pela esperança de descoberta quanto pelo fascínio cultural que essas narrativas exercem sobre a imaginação humana, independentemente de qual lado do mistério cada um escolhe abraçar.


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