Em uma manhã de verão de 2022, um campo arado próximo a Bickmarsh, na Inglaterra, revelou um segredo soterrado há mais de mil anos. Sob o solo, detectoristas de metais encontraram 63 moedas de prata, enterradas possivelmente entre os anos 871 e 874, num período de grande instabilidade causado por invasões vikings.
As moedas, majoritariamente cunhadas pelo rei Burgred de Mércia, refletem um momento de colapso político e social. Este monarca foi forçado ao exílio em 874, quando um grande exército viking tomou Repton, um marco na conquista de territórios anglo-saxões.
Simon Hall, coordenador da escavação, relatou ao Stratford-upon-Avon Herald que os detectores vibravam a cada nova descoberta. “Os homens tremiam de emoção cada vez que uma moeda surgia; era como se estivessem tocando a própria história”, afirmou.
A análise arqueológica sugere que as moedas foram enterradas às pressas, talvez em um pequeno saco de couro ou envoltas em chumbo, como outros achados similares na região. No entanto, séculos de aragem e agricultura espalharam os itens por uma área de 25 a 30 metros quadrados, dificultando a reconstrução precisa do contexto original.
Entre os itens desenterrados, além das moedas mercianas, foram encontrados exemplares vindos do continente europeu. Destacam-se dois denários francos e uma imitação de sólido de ouro associada a Luís, o Piedoso, filho de Carlos Magno, indicando que o tesouro não era apenas local, mas parte de uma rede econômica mais ampla.
Segundo o portal ZME Science, a presença dessas moedas continentais é rara em achados anglo-saxões, mas mais comum em contextos relacionados a atividades vikings. A mistura de moedas pode indicar que o proprietário estava tentando proteger uma riqueza acumulada por meio de comércio ou tributos em um momento de grande insegurança.
A localização de Bickmarsh, próxima à antiga estrada romana Ryknild Street e ao rio Avon, era estratégica tanto para o comércio quanto para movimentos militares. Essas vias, que conectaram o Reino de Mércia a outras partes da Inglaterra e à Europa, também se tornaram rotas de perigo durante as incursões vikings.
O achado, embora não monumental em valor financeiro, é significativo em termos históricos. Especialistas estimam que o tesouro valeria hoje entre 2.000 e 3.000 libras esterlinas, uma fortuna modesta para um comerciante, clérigo ou pequeno proprietário da época, mas ainda assim um montante considerável.
Os arqueólogos enfrentaram um grande mistério ao tentar entender por que o dono das moedas nunca voltou para recuperá-las. A hipótese mais aceita é de que o medo das incursões vikings tenha sido tão grande que o proprietário tenha fugido ou perecido antes de poder retornar.
Documentos da época, como a Crônica Anglo-Saxônica, não mencionam ataques diretos em Worcestershire no período, mas a ausência de registros não confirma a inexistência de eventos. Muitos historiadores acreditam que o silêncio das fontes medievais reflete a seletividade das instituições em preservar apenas o que julgavam importante para seus interesses.
O tesouro de Bickmarsh se soma a outros achados, como o de Severn Stoke, localizado a apenas 22 quilômetros de distância, enterrado por volta de 868. Este último também continha moedas de Burgred e de outros reis saxões, reforçando a tese de que a região era um ponto de tensão e possível incursão viking.
Esse tipo de descoberta arqueológica não apenas ilumina as dificuldades de um período turbulento, mas também conecta o passado ao presente. Os fragmentos de chumbo encontrados junto às moedas, por exemplo, sugerem um método de proteção rudimentar que ainda intriga os especialistas.
À medida que os arqueólogos continuam a estudar o tesouro de Bickmarsh, ele se apresenta como uma cápsula do tempo que encapsula o medo, a riqueza e a complexidade de uma era marcada por invasões e transformações políticas. Cada moeda recuperada não é apenas um pedaço de prata, mas uma janela para uma história de sobrevivência e resistência.
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