O Brasil vai ampliar uma das estruturas científicas mais avançadas do mundo. A fase 2 do Sirius receberá R$ 800 milhões até 2026.
O investimento, previsto no Novo PAC, mira a expansão da maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no país: a fonte de luz síncrotron instalada no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o CNPEM, em Campinas, no interior de São Paulo.
O Sirius não é um acelerador de partículas comum. Ele acelera elétrons a velocidades próximas à da luz para produzir uma radiação extremamente brilhante, chamada luz síncrotron, capaz de revelar a estrutura da matéria em escala atômica e molecular.
Na prática, é uma máquina que permite “enxergar” por dentro materiais, rochas, proteínas, células, medicamentos, fertilizantes, catalisadores, ligas metálicas e componentes usados em energia, agricultura, indústria e saúde.
A nova etapa prevê a construção de dez novas estações de pesquisa. O objetivo é ampliar a capacidade de uso do Sirius e permitir que mais cientistas, universidades, centros de pesquisa e empresas façam experimentos de alta precisão no Brasil.
O equipamento foi projetado para receber até 38 linhas de luz, cada uma dedicada a técnicas e aplicações diferentes. Essas linhas funcionam como estações experimentais, onde a luz gerada pelo acelerador é direcionada para analisar amostras com grau extremo de detalhe.
A dimensão do Sirius explica a importância do novo investimento. A estrutura tem cerca de 68 mil metros quadrados, anel de armazenamento com mais de 500 metros de circunferência e custo original estimado em R$ 1,8 bilhão. É uma obra científica comparável às grandes infraestruturas de pesquisa de países desenvolvidos.
O CNPEM afirma que o Sirius é uma infraestrutura aberta à comunidade científica brasileira e internacional, financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e projetada por pesquisadores e engenheiros do próprio centro, em parceria com a indústria nacional.
Esse ponto é decisivo. O Sirius não representa apenas ciência acadêmica. Ele também induz desenvolvimento industrial. Segundo o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, o projeto alcançou índice de nacionalização de cerca de 85%, com participação de empresas brasileiras em serviços, matérias-primas, componentes e equipamentos.
A fase 2 reforça essa lógica. Quanto mais linhas de luz e estações de pesquisa, maior a capacidade de transformar conhecimento científico em soluções para problemas concretos: novos medicamentos, materiais mais resistentes, fertilizantes mais eficientes, tecnologias para agricultura, energia renovável e processos industriais mais limpos.
O Sirius também tem papel estratégico na saúde. Durante a pandemia, a linha Manacá foi usada em estudos de proteínas do SARS-CoV-2, mostrando como a infraestrutura pode acelerar pesquisas sobre vírus, moléculas e potenciais medicamentos.
A conexão futura com o complexo Orion, laboratório de máxima contenção biológica em construção no CNPEM, pode elevar ainda mais esse papel. Parte das estações do Sirius será conectada a esse novo complexo, criando uma estrutura rara no mundo para investigar agentes biológicos perigosos com técnicas avançadas de imagem e análise.
O investimento ocorre em um momento em que ciência virou disputa de soberania. Países que dominam infraestrutura científica avançada conseguem desenvolver tecnologias próprias, reduzir dependência externa e formar cadeias produtivas de alto valor.
Para o Brasil, o Sirius é mais do que uma máquina sofisticada. É uma plataforma de Estado. Ele permite que pesquisas que antes dependeriam de laboratórios estrangeiros sejam feitas em território nacional, com pesquisadores brasileiros, empresas brasileiras e demandas ligadas à realidade do país.
A expansão também fortalece áreas nas quais o Brasil tem vantagem estratégica, como agricultura tropical, energia limpa, biodiversidade, materiais renováveis, mineração, petróleo, saúde pública e química fina.
O desafio agora é transformar o investimento em capacidade permanente. Não basta construir estações. É preciso garantir orçamento, manutenção, formação de pessoal, integração com universidades e aproximação real com a indústria.
Com R$ 800 milhões para a fase 2, o Sirius entra em uma nova etapa. O Brasil amplia uma infraestrutura que coloca o país em um grupo restrito de nações capazes de operar ciência de fronteira.
Em um mundo no qual tecnologia define poder econômico, defesa, saúde e soberania, investir no Sirius significa disputar o futuro com ferramentas próprias. A maior máquina científica já construída no Brasil não serve apenas para iluminar materiais por dentro. Ela ilumina também o caminho de um país que precisa decidir se quer produzir conhecimento ou apenas comprar tecnologia pronta dos outros.