Encontro entre Xi Jinping e Donald Trump ocorre em meio a disputas comerciais, pressão sobre Taiwan e temor de instabilidade global
Pequim deve receber nos próximos dias um dos encontros diplomáticos mais relevantes de 2026. O presidente chinês Xi Jinping se prepara para receber o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma visita de Estado marcada por disputas comerciais, tensões geopolíticas e um cenário internacional cada vez mais instável.
A reunião terá peso simbólico e estratégico. Será a primeira visita oficial de Trump à China desde sua reeleição e também o segundo encontro de Estado entre os dois líderes em território chinês. O último ocorreu há quase dez anos, em um momento muito diferente da política internacional.
Agora, os dois países enfrentam desafios mais profundos. As divergências comerciais continuam. A disputa tecnológica ganhou força. Além disso, temas como Taiwan, inteligência artificial e segurança internacional ampliaram a pressão sobre as duas maiores economias do planeta.
Mesmo assim, Xi Jinping tenta construir uma narrativa de estabilidade. O governo chinês busca apresentar o diálogo como caminho necessário para evitar uma escalada de conflitos que possa afetar não apenas os dois países, mas toda a economia global.
Nos últimos anos, Xi Jinping passou a utilizar uma metáfora constante para descrever as relações entre China e Estados Unidos. Segundo ele, os dois países conduzem juntos um “grande navio” em meio a mares turbulentos.
Durante um encontro realizado em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025, Xi afirmou a Trump que ambos estavam “no comando das relações China-EUA”. A conversa durou mais de 100 minutos e consolidou um canal direto de comunicação entre os dois presidentes.
Na ocasião, Xi pediu que os Estados Unidos ajudassem a manter o “navio gigante” das relações bilaterais em rota estável, apesar das turbulências internacionais.
A diplomacia pessoal entre os dois líderes virou peça central da estratégia chinesa. Desde a reeleição de Trump, Xi conversou com o presidente americano cinco vezes por telefone. As conversas trataram de comércio, segurança internacional e disputas regionais.
Além disso, Pequim tenta demonstrar que o contato direto entre chefes de Estado ainda pode funcionar como instrumento de contenção de crises. Em um cenário de guerras comerciais e disputas estratégicas, o governo chinês aposta na estabilidade política como diferencial.
Xi Jinping e Donald Trump se encontraram pela primeira vez em 2017. Naquele ano, os dois governos realizaram trocas de visitas oficiais que ajudaram a construir uma relação pessoal entre os líderes.
Em abril daquele ano, Xi e sua esposa, Peng Liyuan, visitaram o resort de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida. O encontro teve forte simbolismo diplomático. Xi conheceu familiares do presidente americano e participou de jantares privados.
Foi nessa visita que o líder chinês declarou uma frase que se tornaria recorrente nas discussões sobre a relação entre os dois países:
“Há mil razões para fazer com que a relação China-EUA seja um sucesso, mas nenhuma razão para rompê-la.”
Meses depois, Trump viajou para Pequim. Xi organizou uma recepção cuidadosamente planejada, incluindo visitas à Cidade Proibida e encontros culturais. O governo chinês buscava reforçar a ideia de cooperação baseada em respeito mútuo e convivência pacífica.
Durante a visita, Trump mostrou a Xi um vídeo de sua neta, Arabella Kushner, cantando em mandarim e recitando poemas chineses clássicos. O episódio viralizou nas redes chinesas e ajudou a suavizar temporariamente a percepção pública sobre as relações bilaterais.
A aproximação pessoal entre os líderes, no entanto, nunca eliminou as divergências estruturais entre os dois países.
A disputa entre Pequim e Washington se intensificou nos últimos anos. Analistas internacionais passaram a citar com frequência a chamada “Armadilha de Tucídides”, teoria que descreve o risco de guerra entre uma potência emergente e outra já estabelecida.
Xi Jinping rejeita essa visão. Segundo ele, o problema não está necessariamente na ascensão da China, mas nos “erros de cálculo estratégicos” entre grandes potências.
O presidente chinês defende que ambos os países precisam manter canais permanentes de diálogo para evitar confrontos desnecessários.
Ainda assim, as tensões permanecem elevadas. A questão de Taiwan continua no centro das divergências. Pequim considera a ilha parte inseparável do território chinês e reage duramente ao apoio militar dos Estados Unidos ao governo taiwanês.
Durante conversa telefônica realizada em fevereiro deste ano, Xi voltou a afirmar que Taiwan é o tema “mais importante e sensível” das relações sino-americanas. Além disso, pediu que Washington trate a venda de armas para Taiwan com “máxima prudência”.
Ao mesmo tempo, a China tenta impedir que o conflito político se transforme em ruptura econômica completa.
As relações comerciais entre China e Estados Unidos continuam marcadas por desconfiança e disputas tarifárias. Nos últimos anos, Washington ampliou restrições econômicas e pressionou setores estratégicos chineses.
Pequim respondeu com contramedidas e endureceu o discurso contra políticas consideradas protecionistas.
Apesar disso, os dois governos mantiveram negociações abertas. Equipes econômicas chinesas e americanas participaram de seis rodadas de conversas comerciais para reduzir tensões e preservar parte da cooperação econômica.
Uma nova rodada de negociações deve ocorrer entre 12 e 13 de maio na Coreia do Sul.
Xi Jinping tem defendido uma visão de longo prazo para lidar com os atritos comerciais. Durante o encontro em Busan, o líder chinês afirmou que os dois países precisam evitar um “ciclo vicioso de retaliação”.
A fala também revela preocupação crescente dentro da China. Embora o país mantenha forte crescimento industrial, a desaceleração econômica global e as disputas comerciais aumentam a pressão sobre empregos, exportações e investimentos.
Por isso, Pequim tenta equilibrar firmeza política e pragmatismo econômico.
Mesmo em meio às disputas, Xi Jinping insiste na necessidade de cooperação entre as duas potências. O governo chinês afirma que desafios globais exigem coordenação internacional, especialmente em áreas como mudanças climáticas, combate às drogas e inteligência artificial.
Em discursos recentes, Xi tem reforçado uma mensagem de interdependência global. Durante encontro com o ex-secretário de Estado americano Antony Blinken em 2024, o presidente chinês citou o conceito tradicional chinês “tong qiu gong ji”, expressão que pode ser traduzida como “trabalhar juntos pelo bem comum no mesmo planeta”.
Segundo Xi, a humanidade enfrenta desafios compartilhados que nenhum país consegue resolver sozinho.
A diplomacia chinesa também voltou a resgatar a memória da chamada Diplomacia do Pingue-Pongue, episódio histórico de 1971 que aproximou China e Estados Unidos após décadas de isolamento político.
Recentemente, Xi enviou mensagem para um evento que comemorava os 55 anos daquele marco diplomático. O presidente chinês relembrou a ideia de que “uma pequena bola move um grande globo”, em referência às partidas amistosas de tênis de mesa que abriram caminho para a retomada das relações entre os dois países.
O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump acontece em um momento especialmente simbólico. Em 2026, a China inicia seu 15º Plano Quinquenal, enquanto os Estados Unidos celebram os 250 anos de sua fundação.
Além disso, os dois países sediarão eventos internacionais importantes. A China receberá a reunião de líderes econômicos da APEC em Shenzhen. Já os Estados Unidos organizarão a cúpula do G20 em Miami.
O peso político e econômico dessas duas potências amplia ainda mais a expectativa em torno da reunião.
Para Pequim, manter uma relação minimamente estável com Washington se tornou prioridade estratégica. O governo chinês entende que um confronto direto entre as duas maiores economias do mundo poderia aprofundar crises econômicas, elevar tensões militares e aumentar a instabilidade internacional.
Ao mesmo tempo, Xi Jinping tenta consolidar a imagem da China como potência disposta ao diálogo e à cooperação internacional, contrastando com a postura mais agressiva adotada por setores políticos dos Estados Unidos nos últimos anos.
Resta saber se o encontro conseguirá produzir avanços concretos ou apenas evitar novas escaladas de tensão. Ainda assim, diante do atual cenário global, até mesmo pequenos sinais de estabilidade já carregam enorme peso político e econômico.