Dependência tecnológica expõe fragilidade da Europa

O que acontece se Washington acionar o "interruptor de desligamento" dos serviços digitais / Reprodução

Caso de juiz francês sancionado pelos EUA expôs como serviços digitais europeus dependem da infraestrutura americana

A rotina de milhões de europeus pode parar em poucas horas caso os Estados Unidos decidam bloquear o acesso a serviços digitais essenciais. O cenário, que durante décadas parecia improvável, agora passou a preocupar governos, empresas e autoridades da União Europeia.

A possibilidade ganhou força após o retorno de Donald Trump à Casa Branca e o aumento das tensões políticas entre Washington e seus aliados históricos. Em Bruxelas, diplomatas já discutem abertamente os riscos de uma dependência excessiva das grandes empresas americanas de tecnologia e pagamentos.

O alerta deixou de ser teórico depois que o juiz francês Nicolas Guillou, integrante do Tribunal Penal Internacional, sofreu sanções dos EUA em 2025. Em poucos dias, ele perdeu acesso a cartões, plataformas digitais, serviços bancários e sistemas online usados diariamente por milhões de pessoas.

O caso revelou algo que muitos europeus ainda ignoravam: boa parte da vida digital do continente depende diretamente da infraestrutura controlada por empresas americanas.

Nicolas Guillou não esperava escapar completamente das punições americanas. Como juiz do Tribunal Penal Internacional, em Haia, ele havia emitido mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por supostos crimes de guerra em Gaza.

Outros magistrados do tribunal já tinham enfrentado medidas semelhantes meses antes. Mesmo assim, Guillou afirma que o impacto real das sanções surpreendeu.

“Naquela época, não tínhamos clareza sobre a extensão do transtorno que isso causaria em nosso dia a dia”, declarou.

Em poucos dias, sua vida cotidiana virou uma sequência de obstáculos. Transferências bancárias passaram a ser recusadas. Cartões vinculados a sistemas americanos deixaram de funcionar. Plataformas de hospedagem cancelaram reservas automaticamente.

Sem acesso normal aos meios digitais, Guillou precisou recorrer a dinheiro em espécie e ao iDEAL, sistema nacional de pagamentos da Holanda.

Além disso, ele enfrentou dificuldades até em situações simples. O sistema público de bicicletas Vélib’ Métropole, em Paris, bloqueou seu cadastro porque exigia cartão de crédito internacional como garantia.

Pacotes enviados pela UPS foram devolvidos aos remetentes. Sua seguradora de saúde tentou cancelar o plano. Segundo o magistrado, departamentos de compliance nos EUA preferem eliminar qualquer risco jurídico.

“Nos Estados Unidos, os departamentos de compliance estão tão receosos de qualquer possível consequência que preferem não correr nenhum tipo de risco”, afirmou.

O caso individual de Guillou rapidamente se transformou em símbolo de uma vulnerabilidade muito maior. Autoridades europeias agora discutem o que aconteceria caso Washington acionasse uma espécie de “interruptor de desligamento” contra usuários ou instituições da União Europeia.

O impacto seria imediato.

Pela manhã, serviços de e-mail do Google, Microsoft, Yahoo! e Apple poderiam simplesmente parar de funcionar. Depois disso, aplicativos de mensagens como WhatsApp, Signal e Slack também ficariam indisponíveis.

No ambiente de trabalho, plataformas como Microsoft Teams, Zoom e Google Docs deixariam empresas inteiras sem comunicação e sem acesso a arquivos armazenados na nuvem.

Além disso, os efeitos atingiriam pagamentos e mobilidade urbana. Sistemas como Apple Pay deixariam de funcionar. Muitos caixas eletrônicos também seriam afetados porque dependem das bandeiras Visa e Mastercard.

Mesmo serviços considerados básicos enfrentariam dificuldades. Reservas feitas no Booking.com ou Expedia poderiam ser canceladas. Plataformas como Amazon, Netflix, YouTube, Apple TV e Amazon Prime também sairiam do ar.

Sem acesso ao Google Maps, cidadãos teriam dificuldade até para se locomover em cidades desconhecidas.

Durante décadas, a integração econômica entre Estados Unidos e Europa parecia vantajosa para os dois lados. Produtos europeus cruzavam o Atlântico enquanto serviços digitais americanos dominavam o mercado europeu.

Em 2023, a União Europeia registrou superávit de €156,6 bilhões no comércio de bens com os EUA. Porém, no setor de serviços, o bloco europeu acumulou déficit de €108,6 bilhões.

Agora, essa relação passou a ser vista como um problema estratégico.

“Os EUA têm a vantagem neste assunto e estão muito conscientes disso”, afirmou um diplomata sênior da União Europeia.

A preocupação cresce principalmente na economia digital. A Europa ainda não conseguiu criar uma gigante tecnológica capaz de rivalizar com empresas americanas.

Enquanto isso, redes sociais, plataformas de nuvem, serviços de inteligência artificial e sistemas financeiros seguem concentrados em grupos dos EUA.

Com o avanço da inteligência artificial, o temor aumentou ainda mais. Especialistas avaliam que empresas americanas possuem vantagem decisiva em capacidade computacional, acesso a dados e alcance global de usuários.

Diante desse cenário, governos europeus aceleraram projetos para reduzir a dependência tecnológica externa.

Na área financeira, autoridades trabalham na criação de sistemas de pagamentos pan-europeus capazes de competir com Visa e Mastercard. Um consórcio de bancos promete oferecer “pagamentos transfronteiriços perfeitos em toda a Europa até 2027”.

Ainda assim, a iniciativa deve funcionar inicialmente em apenas 13 países.

Outra aposta envolve o euro digital, projeto liderado pelo Banco Central Europeu. A proposta prevê uma moeda digital oficial aceita em toda a zona do euro. Porém, negociações políticas complexas devem atrasar sua implementação até pelo menos 2029.

Aurore Lalucq, presidente da comissão econômica do Parlamento Europeu, defende pressa.

“Precisamos avançar com o que eu chamo de ‘Airbus dos pagamentos’”, afirmou.

Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia prepara um “pacote de soberania tecnológica” para fortalecer setores como computação em nuvem, inteligência artificial e semicondutores.

Apesar da dependência europeia, especialistas lembram que os EUA também precisam da Europa em áreas estratégicas.

A empresa holandesa ASML domina o mercado global de equipamentos de litografia usados na fabricação de chips avançados. Gigantes como Intel e Taiwan Semiconductor Manufacturing Company dependem diretamente dessa tecnologia.

Além disso, empresas europeias como Nokia e Ericsson possuem papel importante na infraestrutura global de telecomunicações.

Alexandre Roure, da Computer & Communications Industry Association, afirma que um rompimento total também prejudicaria os americanos.

“A dependência tem dois lados. Se os EUA tentassem se desvincular de projetistas de chips europeus como a ASML ou de fornecedores de redes móveis como a Nokia e a Ericsson, que sustentam as redes de telecomunicações americanas, o impacto na economia dos EUA seria igualmente severo”, declarou.

Mesmo assim, a cadeia tecnológica global permanece profundamente interligada. A própria ASML depende de componentes americanos e mantém cerca de 20% de sua força de trabalho nos Estados Unidos.

Enquanto alguns governos defendem fortalecer empresas locais, outros apostam em taxar gigantes digitais americanas.

França, Itália, Espanha, Áustria, Hungria e Polônia já implementaram algum tipo de imposto digital. Alemanha, Bélgica, Letônia e Eslovênia também discutem medidas semelhantes.

No entanto, críticos alertam para possíveis consequências negativas.

Jörg Kukies, ex-ministro das Finanças da Alemanha, afirmou que a ausência de alternativas europeias limita a eficácia dessas políticas.

“O principal problema para a UE na tributação de serviços digitais é a falta de alternativas europeias em IA, redes sociais, serviços em nuvem e outros componentes da indústria digital”, disse.

Segundo ele, consumidores europeus podem acabar pagando a conta por meio do aumento de preços.

Nos bastidores de Bruxelas, parte dos governos europeus passou a defender respostas mais agressivas contra empresas americanas caso as tensões aumentem.

Durante a crise envolvendo a Groenlândia, quando Donald Trump ameaçou assumir o controle do território dinamarquês, diplomatas revelaram que vários países apoiaram o uso do chamado Instrumento Anticoerção.

Conheida informalmente como “bazuca”, a medida permitiria restringir importações de serviços americanos.

A França apoia a proposta. Já a Alemanha e outros países demonstram preocupação com possíveis retaliações econômicas.

Enquanto isso, cidadãos europeus começam a perceber o tamanho da dependência digital construída ao longo das últimas décadas.

“Você percebe o quanto depende dessas coisas”, afirmou Guillou. “E como, na verdade, algo que você pensa controlar, na realidade não está sob seu controle.”

Com informações de Financial Times*

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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