Cole Allen, de 31 anos, responde por quatro crimes graves, incluindo tentativa de assassinato do presidente Trump; defesa questiona imparcialidade do Ministério Público
Cole Allen entrou na sala de audiências na manhã desta segunda-feira sem dizer uma palavra. Com macacão laranja de presidiário e algemas nos pulsos e nos tornozelos, ele manteve os olhos fixos no chão enquanto o juiz lia as acusações contra ele. Ao fim da leitura, seu advogado entrou com a declaração formal: inocente em todas as contagens.
Allen é o homem acusado de tentar assassinar o presidente Donald Trump durante o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, realizado em 25 de abril no Washington Hilton Hotel. O evento reunia milhares de jornalistas, além do próprio Trump e membros de seu gabinete — um dos encontros mais simbólicos entre a imprensa e o poder executivo nos Estados Unidos.
O ataque, no entanto, nunca chegou a se concretizar. Segundo os promotores, agentes de segurança interceptaram Allen enquanto ele tentava forçar a passagem por um ponto de controle do hotel. Ele carregava múltiplas armas e, de acordo com a queixa-crime, havia deixado por escrito que membros do governo eram seus alvos. O Departamento de Justiça divulgou uma imagem obtida em 29 de abril que mostra o suspeito tirando uma selfie no quarto do hotel momentos antes da tentativa.
O Ministério Público federal imputa a Allen quatro crimes de natureza grave. O primeiro e mais sério é a tentativa de assassinato do presidente dos Estados Unidos. Os demais incluem agressão a um agente federal com arma mortal, transporte interestadual de arma de fogo e munição com intenção de cometer crime e disparo de arma durante um crime violento.
Cada uma dessas acusações, isoladamente, carrega penas severas. Juntas, podem resultar em décadas de prisão. A combinação dos crimes coloca o caso entre os mais graves já julgados pela Justiça federal americana nos últimos anos.
Allen tem 31 anos e, até o momento, não prestou nenhuma declaração pública sobre o episódio. Durante toda a audiência desta segunda-feira, manteve postura fechada e não interagiu com ninguém presente na sala.
A estratégia dos advogados de defesa vai além da declaração de inocência. A equipe jurídica de Allen sinalizou que pode pedir o afastamento completo do escritório do procurador federal do Distrito de Columbia da condução do processo. O argumento é que os próprios promotores poderiam ser considerados vítimas do ataque — já que estavam ou poderiam estar presentes no evento — e, portanto, teriam interesse direto no resultado da ação.
O advogado Eugene Ohm foi além. Ele argumentou que a procuradora federal Jeanine Pirro mantém uma relação “muito pública” e “próxima” com Trump, o suposto alvo do ataque. Para a defesa, essa proximidade compromete a imparcialidade da acusação e pode justificar a saída de Pirro do caso.
O juiz Trevor McFadden, por sua vez, demonstrou interesse em esclarecer exatamente quais são os papéis de Pirro e do procurador-geral interino Todd Blanche na condução da ação penal. A questão ainda não tem resposta definitiva. O governo tem até 22 de maio para responder formalmente à moção apresentada pela defesa.
O contexto do ataque adiciona uma dimensão política ao caso. O jantar de correspondentes da Casa Branca é, há décadas, um ritual da democracia americana: jornalistas e governantes dividem o mesmo espaço, geralmente em clima de humor e crítica velada. Trump já havia boicotado o evento em seu primeiro mandato. Desta vez, estava presente — e se tornou, segundo a acusação, o alvo principal de um homem armado.
A presença de tantos jornalistas no local também levanta questões sobre segurança e sobre o ambiente de hostilidade crescente em relação à imprensa nos EUA. Ainda que Allen, conforme a queixa-crime, tenha mirado em “membros do governo”, o ataque aconteceu justamente no evento que simboliza, ao menos formalmente, o encontro entre o poder e a liberdade de imprensa.
O próximo passo do caso depende da resposta do governo à moção da defesa, esperada até o fim do mês. A partir daí, o juiz McFadden deverá decidir se a promotoria segue no caso ou se outra equipe assume a condução da ação contra Cole Allen.