Estudo global revela que solos agrícolas e tropicais têm redes alimentares mais diversas do que florestas

Um invertebrado com protuberâncias laranja em um ambiente de solo. (Foto: phys.org)

Uma análise internacional de grande escala desafia uma das premissas mais consolidadas da ecologia: a de que o uso intensivo da terra empobrece as comunidades de animais do solo.

Publicado na revista Nature Ecology & Evolution, o estudo foi conduzido por uma equipe liderada pela Universidade de Göttingen, na Alemanha. Ele mostra que a diversidade trófica — a variedade de formas de alimentação — dos animais que vivem no solo é significativamente maior em ecossistemas agrícolas e em regiões tropicais do que em florestas temperadas.

A pesquisa analisou as razões de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio em mais de 17.000 amostras de solo. Foram cobertos 28 grandes grupos de organismos coletados em 456 locais distribuídos por 19 países.

Os resultados indicam que a diversidade trófica nos sistemas agrícolas é cerca de 32% maior do que em áreas florestais. Nas regiões tropicais, esse índice sobe ainda mais: a diversidade de formas de alimentação é aproximadamente 40% superior à registrada em zonas temperadas.

O primeiro autor do estudo, o pesquisador Zheng Zhou, atualmente na Universidade de Hohenheim, na Alemanha, foi cuidadoso ao interpretar os dados. “Isso não significa que a agricultura é benéfica para a biodiversidade do solo”, afirmou Zhou. “Nossos resultados sugerem que os animais do solo em sistemas agrícolas podem responder à limitação de recursos e às perturbações expandindo sua forma de se alimentar.”

Essa flexibilidade alimentar provavelmente ajuda a manter as funções do solo, mas também pode refletir a perda de espécies especializadas, segundo o pesquisador.

A explicação para o fenômeno passa pela lógica da escassez. Em ambientes agrícolas, onde os recursos são frequentemente mais limitados e distribuídos de forma irregular, os animais do solo — como nematoides, colêmbolos, ácaros, minhocas, aranhas e outros artrópodes — seriam forçados a ampliar suas dietas. O resultado é uma rede trófica mais ramificada, não necessariamente mais rica em espécies.

Nos trópicos, o mecanismo é distinto, mas o efeito é semelhante. Os solos tropicais são caracterizados por decomposição acelerada, baixo acúmulo de matéria orgânica e forte competição por recursos. Isso leva os animais do solo a particionar os recursos de forma mais fina ou a ampliar o leque do que consomem.

Segundo o estudo, disponível no portal Phys.org, essa maior diversidade de atividades alimentares nos trópicos está ligada não apenas à maior riqueza de espécies. Ela também reflete uma diferenciação de nicho mais intensa entre os grupos de animais do solo.

Stefan Scheu, professor de Ecologia Animal da Universidade de Göttingen e coautor sênior do estudo, destacou as implicações mais amplas da descoberta. “Nossas descobertas mostram que as comunidades de animais do solo ajustam sua posição específica em uma cadeia ou teia alimentar com as mudanças no uso da terra”, disse Scheu. “Essa flexibilidade pode ajudar a amortecer processos ecossistêmicos como a decomposição e a ciclagem de nutrientes diante das mudanças globais.”

A pergunta deixada em aberto pelos pesquisadores é central para o futuro da agricultura e da conservação: generalistas adaptativos conseguem manter as funções ecológicas do solo com a mesma eficiência que especialistas extintos? O estudo fornece a base empírica para que essa resposta seja buscada com rigor.

O trabalho reforça que contar espécies não é suficiente para entender a saúde do solo. Os papéis alimentares dos animais que habitam o subsolo — e como esses papéis se transformam conforme o clima e o uso da terra — são determinantes para prever a estabilidade dos sistemas edáficos em um planeta sob pressão crescente.


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