Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Toronto identificou uma molécula capaz de desativar proteínas associadas a doenças sem destruí-las — um mecanismo inédito que expande as fronteiras da chamada ‘cola molecular’ e abre perspectivas concretas para o tratamento de cânceres e doenças metabólicas.
A descoberta foi publicada na revista Nature Chemical Biology e representa um avanço significativo no campo da biologia química. A molécula, batizada de CLEO4-88, age como uma espécie de grampo biológico: ela une duas proteínas que normalmente não interagem entre si, provocando a inativação de uma delas.
O mecanismo difere do funcionamento convencional das colas moleculares, que geralmente marcam proteínas para destruição pelo próprio sistema celular. O pesquisador Chetan Chana e seus colegas utilizaram os raios-X de alta potência da Fonte Canadense de Luz (CLS), instalada na Universidade de Saskatchewan, para visualizar em detalhe como o CLEO4-88 une as duas proteínas.
O processo reduz a atividade de uma delas, identificada como ACAA1, sem destruí-la. Segundo o portal Phys.org, a proteína ACAA1 está envolvida na quebra de gorduras dentro das células.
O interesse clínico imediato recai sobre um tipo específico de câncer de mama. Estudos anteriores já haviam demonstrado que a atividade da ACAA1 se encontra elevada em casos de câncer de mama triplo-negativo — uma das formas mais agressivas e de difícil tratamento da doença, por não responder às terapias hormonais convencionais.
Controlar essa proteína com precisão pode representar uma nova frente terapêutica para pacientes sem opções eficazes disponíveis. ‘Isso é empolgante porque as colas moleculares normalmente eliminam proteínas, mas isso mostra que elas também podem inativá-las’, afirmou Chana. ‘Há muitos exemplos de doenças causadas por proteínas hiperativas.’
O pesquisador ressaltou que o trabalho funciona como uma prova de conceito que amplia o escopo das colas moleculares para além da simples destruição de proteínas. O campo passa a contemplar também a modulação da atividade proteica — uma distinção fundamental, já que nem sempre eliminar uma proteína é a estratégia mais segura ou eficaz.
A relevância do achado está na precisão que ele sugere ser possível alcançar. Cientistas poderão desenvolver medicamentos que controlem proteínas nocivas com muito mais seletividade, reduzindo efeitos colaterais e aumentando a eficácia dos tratamentos. ‘Podemos ser capazes de encontrar outras moléculas que se colem a outras proteínas com benefício terapêutico’, disse Chana.
O estudo, assinado por Chetan K. Chana e colaboradores sob o título ‘The molecular glue CLEO4-88 inhibits the ACAA1 thiolase by induced binding to GID4’, foi publicado na Nature Chemical Biology. A parceria entre as duas universidades canadenses ilustra como a ciência de ponta depende de grandes instalações de pesquisa compartilhadas para avançar em descobertas com potencial de impacto direto na saúde humana.
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