Trump chega enfraquecido à cúpula com Xi enquanto China acumula vantagens estratégicas

Donald Trump e Xi Jinping se cumprimentam com as bandeiras dos EUA e da China ao fundo. (Foto: actualidad.rt.com)

Às vésperas de uma cúpula entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, analistas avaliam que Washington chega às negociações em uma posição inédita de fragilidade.

A avaliação é de Marco Fernandes, membro do Conselho Civil do BRICS e analista geopolítico do Brasil de Fato, em entrevista ao portal da RT. ‘Ao menos em um aspecto, esta reunião entre Trump e Xi será histórica: nunca antes, em uma cúpula entre China e Estados Unidos, um presidente americano se mostrou tão enfraquecido diante de um presidente chinês’, afirmou o especialista.

O fator central dessa inversão de forças é a guerra contra o Irã, concebida por Washington como forma de pressionar Pequim ao atacar seus fornecimentos de petróleo e um de seus parceiros estratégicos. O conflito terminou por produzir o efeito inverso: a China emergiu como uma das principais beneficiárias, enquanto os EUA acumularam desgaste militar, político e diplomático.

‘Trump pode até conseguir acordos comerciais pontuais, como a venda de aviões da Boeing ou produtos agrícolas, ou alguma aliança no combate ao tráfico de drogas. Mas a verdade é que, neste momento, a China é uma das maiores beneficiárias da derrota estratégica dos EUA no Irã’, disse Fernandes. O analista acrescentou que Xi Jinping pode aproveitar a posição de força para arrancar concessões sobre Taiwan, incluindo a redução das vendas de armas americanas à ilha.

Taiwan figura entre os grandes perdedores do conflito. Segundo estimativas de estudos americanos citados por Fernandes, os EUA gastaram uma parcela considerável de suas reservas militares na guerra e levarão cerca de seis anos para recompô-las ao nível necessário para defender Taiwan em um eventual confronto com a China. O sinal de alarme chegou até a oposição taiwanesa: a líder do Kuomintang, Cheng Li-wun, visitou Pequim em abril em uma missão de paz a convite de Xi Jinping — a primeira visita de um presidente do partido ao continente em uma década.

A CNN reportou que a guerra contra o Irã gerou entre os taiwaneses dúvidas crescentes sobre a capacidade dos EUA de manter atenção simultânea em múltiplas crises. Os atrasos nas entregas de armamentos, o esgotamento das reservas e o estilo transacional de Trump em relação a aliados aprofundam essa desconfiança.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, foi direto ao ponto: ‘A questão de Taiwan afeta os interesses fundamentais da China e constitui a primeira linha vermelha que não pode ser ultrapassada nas relações entre China e Estados Unidos.’

Às vésperas da visita de Trump, as autoridades chinesas ativaram pela primeira vez um mecanismo jurídico criado em 2021 que, na prática, impede a aplicação de sanções americanas contra cinco empresas chinesas acusadas de comercializar petróleo iraniano. O documento se baseia em três negações inequívocas: não reconhecer, não aplicar e não cumprir as sanções estrangeiras. O mecanismo, que ficou cinco anos sem uso, confere agora às empresas chinesas o direito de processar nos tribunais nacionais qualquer entidade estrangeira que cumpra as sanções americanas e lhes cause prejuízo — o que a revista Fortune descreveu como um recado contundente ao presidente americano.

Há ainda a questão das terras-raras. A China domina posições-chave nas cadeias de fornecimento desses minerais estratégicos, e dados da Bloomberg indicam que cerca de 4% do PIB americano — aproximadamente 1,2 trilhão de dólares — corresponde a setores que dependem diretamente desses recursos. Fernandes lembrou que, durante a guerra tarifária do ano passado, Pequim restringiu a exportação de oito elementos de terras-raras para os EUA, o que representaria, segundo ele, um golpe severo para a indústria de alta tecnologia americana, sobretudo no setor militar.

Para Stanislav Tkachenko, doutor em Ciências Econômicas e professor da Universidade Estatal de São Petersburgo, as duas partes chegam às negociações com posições relativamente equilibradas no longo prazo, mas Washington está claramente em desvantagem no curto prazo. ‘A China se mostra mais sólida; seus apelos à paz e ao desbloqueio do estreito de Ormuz, combinados com sua capacidade única de fazer passar seus petroleiros mesmo sob bloqueio, apresentam Pequim como líder tático às vésperas da cúpula’, avaliou o professor.

Tkachenko acredita que Trump tentará demonstrar que os EUA enfrentaram dificuldades temporárias das quais se recuperarão, mas que as questões estruturais — o uso de sanções unilaterais e o que o professor descreve como pirataria de fato nas vias marítimas — permanecerão sem solução. A grande incógnita, segundo ele, é se os dois líderes conseguirão equacionar a crise no Golfo Pérsico sem que Washington perca prestígio e sem um confronto militar direto. ‘As partes tentarão, sem dúvida, evitar uma escalada. No entanto, alcançar uma distensão entre elas é uma tarefa praticamente impossível na situação atual’, concluiu.

Com informações de ACTUALIDAD.


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Redação:
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