Arqueólogos identificam cidadela perdida dos Incas nos Andes peruanos após descoberta de 3 mil sequins de ouro

Ilustração editorial sobre Arqueólogos identificam cidadela perdida dos Incas nos Andes peruanos após descoberta de 3 mil sequins de ouro. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Nas encostas vertiginosas do sul dos Andes peruanos, a cerca de 90 metros acima do rio Apurímac, um sítio arqueológico chamado T’aqrachullo guardou seus segredos por séculos sob a forma de ruínas cobertas por arbustos e pastagens de alpacas. Tudo mudou em setembro de 2022, quando o arqueólogo peruano Dante Huallpayunca, escavando o interior de uma estrutura de pedra, ouviu o grito de um assistente — e se deparou com o brilho inconfundível do ouro.

O que emergiu daquela escavação foi um tesouro de quase 3.000 sequins de ouro, prata e cobre, enterrados por centenas de anos e posteriormente datados do início do século XVI. As peças foram identificadas como adornos de vestes cerimoniais da elite Inca, e sua presença no sítio provocou uma reavaliação dramática de tudo o que se sabia sobre T’aqrachullo.

O sítio se estende por 43 acres sobre uma mesa de rocha — uma área aproximadamente quatro vezes maior que a de Machu Picchu, localizada cerca de 225 quilômetros a noroeste. As escavações patrocinadas pelo Ministério da Cultura do Peru, iniciadas em 2019, já revelaram quase 600 estruturas: casas, tumbas e santuários dedicados a antigas divindades, além de incontáveis objetos cerimoniais em metais preciosos.

Agora, um número crescente de especialistas defende uma hipótese ainda mais provocadora: a de que T’aqrachullo é, na verdade, a lendária fortaleza Inca conhecida como Ancocagua — uma cidadela quase mítica descrita por cronistas coloniais como sede de um dos templos mais sagrados de todo o Império Inca. A localização exata de Ancocagua permaneceu um enigma por séculos, mas as evidências acumuladas no sítio estão, pouco a pouco, fechando esse círculo histórico.

A pista mais antiga vem de um tratado de 1553 chamado Crónica del Perú, escrito pelo conquistador Pedro Cieza de León, que descreveu Ancocagua como um dos cinco sítios religiosos mais importantes de todo o império, rico em ouro e prata e lar de um antigo oráculo. Décadas depois, a descoberta em 1987, numa coleção privada na Espanha, de um manuscrito perdido do colonialista quéchua Juan de Betanzos trouxe novos detalhes: Betanzos narrou uma batalha sangrenta travada em Ancocagua durante os últimos anos do Império Inca, quando tropas comandadas pelo irmão do conquistador Francisco Pizarro sitiaram a fortaleza, cortando o acesso a alimentos e água, e muitos de seus defensores se lançaram dos penhascos à morte para não se render.

Foi munido dessas pistas que o arqueólogo americano Johan Reinhard, explorador da National Geographic e especialista em religião Inca, viajou ao Peru na década de 1990 e, com a ajuda da arqueóloga peruana Alicia Quirita, professora da Universidade Nacional de San Antonio Abad del Cusco, visitou T’aqrachullo pela primeira vez. Reinhard ficou convencido de que a geografia do sítio correspondia às descrições dos cronistas, e em 1998 publicou um artigo na revista Andean Past defendendo ter identificado ‘um dos sítios Incas mais enigmáticos’ de toda a literatura colonial.

Quirita, criada nas proximidades do sítio no distrito rural de Suykutambo, cresceu falando quéchua — a língua dos Incas — e usando as vestimentas tradicionais andinas. Ela foi uma das primeiras estudiosas a percorrer T’aqrachullo de bicicleta, nos anos 1990, catalogando sítios arqueológicos para sua tese, e foi a primeira a notar a presença de cerâmica associada ao povo Wari, uma civilização que antecedeu os Incas e que, até então, não se acreditava ter se expandido tão para o sul.

Por décadas, porém, Quirita manteve ceticismo em relação à teoria de Reinhard. A grandiosidade monumental que ela esperava de um sítio como Ancocagua simplesmente não parecia estar ali — foram necessários 31 anos e outra descoberta extraordinária para mudar sua perspectiva.

Em 2023, o arqueólogo Emerson Pereyra, veterano de 12 anos de escavações em Machu Picchu e responsável pela equipe do Ministério da Cultura em T’aqrachullo, revelou as fundações de um templo monumental. A estrutura foi construída em etapas, com as camadas mais antigas remontando a cerca de 2.000 anos — o que significa que o templo foi utilizado não apenas pelos Incas, mas também pelos povos Qolla e Wari.

Dentro das ruínas, os arqueólogos encontraram uma fonte cerimonial de pedra com pepitas de ouro embutidas em sua alvenaria, além de figurinas de lhamas e folhas de ouro e da mineral azul-esverdeada crisocoila esculpidas em forma de pumas. Como a National Geographic reportou em detalhes, Pereyra afirma nunca ter visto nada comparável em Machu Picchu: ‘É assombroso.’

A descoberta do templo reforçou a teoria de Ancocagua, pois a Crónica de Cieza de León descreve o templo local como ‘muito antigo e grandemente reverenciado’ mesmo à época dos conquistadores — uma referência que alguns estudiosos interpretam como reconhecimento de seu uso pelos Wari. Outros indícios militares também emergiram: Pereyra encontrou depósitos de projéteis esféricos de pedra, pontas de lança de obsidiana e esqueletos com sinais de ferimentos violentos.

O caminho que leva ao platô estava bloqueado por até três metros de rocha — o que a equipe inicialmente atribuiu a um desmoronamento natural, mas que agora interpreta como sabotagem deliberada dos próprios Incas para impedir o avanço espanhol. O que ainda falta, porém, é evidência direta da presença espanhola no sítio: se T’aqrachullo é de fato Ancocagua, os conquistadores simplesmente saquearam o local e partiram sem deixar rastros, ou foram os próprios Incas que destruíram sua fortaleza para negá-la ao invasor?

As escavações foram encerradas em 2024, com os arqueólogos tendo examinado pouco mais da metade do vasto sítio. A outra metade foi deliberadamente preservada para pesquisadores futuros, que poderão retornar com novas tecnologias e métodos mais avançados de análise.

O Ministério da Cultura concentra seus esforços agora na restauração do sítio para receber visitantes, embora o fluxo de turistas ainda seja modesto — majoritariamente moradores da região de Cusco. Em novembro passado, Reinhard, hoje com 82 anos, e Quirita, com 59, visitaram T’aqrachullo juntos pela primeira vez desde 1994.

Ao caminhar entre as centenas de estruturas recém-escavadas, Quirita — a mesma estudante que percorreu os Andes de bicicleta décadas atrás e que hoje é uma das principais arqueólogas de campo do Peru — finalmente deixou suas dúvidas de lado. ‘As evidências estão aqui’, disse ela, contemplando o sítio cerimonial em terraços: ‘Estamos no templo.’

Para além do enigma histórico, há uma dimensão política e cultural nessa descoberta que não pode ser ignorada. Tantos dos sítios sagrados Incas foram ‘descobertos’ por exploradores europeus e norte-americanos nos séculos XIX e XX, com suas narrativas sendo contadas pelos herdeiros dos próprios colonizadores — e T’aqrachullo representa uma ruptura com esse padrão.

A escavação foi conduzida integralmente por pesquisadores peruanos, e Pereyra e sua equipe realizam regularmente encontros nas aldeias ao redor do sítio, compartilhando as descobertas com as comunidades que vivem à sombra da mesa rochosa. ‘Estamos ajudando-as a recuperar sua cultura e identidade’, diz ele — e essa frase, talvez, valha mais do que qualquer sequin de ouro.


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