Cazarré espalha fake news red pill na GloboNews sem ser corrigido pela mediação

O ator Juliano Cazarré durante participação no programa GloboNews Debate. (Foto: diariodocentrodomundo.com.br)

O ator Juliano Cazarré protagonizou um episódio de desinformação ao vivo durante o programa ‘GloboNews Debate’, repetindo narrativas falsas sobre violência de gênero e educação sexual que circulam há anos nos círculos red pill do TikTok e das redes sociais bolsonaristas. A jornalista Julia Duailibi, mediadora do debate, não confrontou nenhuma das afirmações inverídicas apresentadas pelo ator ao longo da atração.

Ao lado da psicanalista Vera Iaconelli e do consultor em equidade racial e de gênero Ismael dos Anjos, Cazarré afirmou que homens estariam sendo tratados como ‘tóxicos’ apenas por serem homens. Declarou ainda existir uma perseguição cultural masculina nas últimas décadas.

‘Eu estou falando para os homens e meninos que estão há 20 anos ouvindo que todos eles são tóxicos só pelo fato de serem homens’, disse o ator durante o programa. A afirmação mais grave veio na sequência, quando Cazarré repetiu uma narrativa já desmentida por agências de checagem.

O ator sugeriu que mulheres matariam mais homens no Brasil do que o contrário. O argumento tem origem em vídeos que circulam em redes sociais e que afirmavam que o país teria registrado 46.328 homens mortos em crimes violentos — número contestado por levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que registra cifra em torno de 42 mil.

Os vídeos aplicavam um percentual de 6% falsamente atribuído ao Ipea para concluir que cerca de 2.760 homens teriam sido assassinados por parceiras. A comparação, conforme aponta o Diário do Centro do Mundo, mistura categorias estatísticas completamente diferentes.

O cálculo inclui homicídios em geral, latrocínios, mortes decorrentes de violência policial, confrontos ligados ao crime organizado e lesões corporais seguidas de morte. São contextos nos quais homens são maioria tanto entre vítimas quanto entre autores, sem qualquer relação com violência de gênero.

O percentual de 6% foi retirado de um levantamento global de 2013 e apresentado fora de contexto. O mesmo estudo apontava que, naquele ano, 40% dos homicídios de mulheres no mundo haviam sido cometidos por parceiros íntimos ou familiares.

Dados mais recentes da ONU, publicados no relatório ‘Gender-Related Killing of Women and Girls’ de 2023, mostram agravamento desse cenário. Segundo o documento, 60% dos feminicídios registrados globalmente são praticados por parceiros ou familiares das vítimas, enquanto entre homens apenas 12% dos homicídios ocorrem dentro do ambiente doméstico ou em relações íntimas.

Vera Iaconelli respondeu dizendo que mulheres pedem apenas para ‘não serem mortas’, enquanto homens frequentemente interpretam qualquer debate sobre masculinidade como ataque pessoal. Ismael dos Anjos questionou Cazarré sobre a origem das informações, sem, no entanto, esclarecer ao público que se tratava de uma cascata de desinformação amplamente documentada.

Cazarré também reviveu outra fake news recorrente ao sugerir que escolas brasileiras ensinam crianças a colocar preservativos com a boca. O vídeo usado há anos por grupos bolsonaristas como ‘prova’ da acusação foi gravado em uma feira universitária da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e não em uma escola infantil.

O ator omitiu esse detalhe e a mediação do programa tampouco esclareceu o fato ao telespectador. O debate ocorreu semanas após o lançamento do curso ‘O Farol e a Forja’, criado pelo próprio Cazarré e voltado para o que ele chama de liderança masculina, espiritualidade cristã e masculinidade.

Ao defender diferenças naturais entre homens e mulheres, o ator afirmou que homens seriam mais voltados à ação e à resolução de problemas. ‘Eu quero criar meninos que tenham empatia, mas que também sejam corajosos, sejam viris, resolvam problemas’, declarou.

Vera Iaconelli rebateu dizendo que o modelo tradicional de masculinidade precisa incorporar cuidado e escuta. Ismael dos Anjos apontou que a narrativa de ‘perseguição ao homem’ ignora décadas de dados sobre violência doméstica.

Cazarré ainda classificou o funk como uma ‘perversão’, completando o pacote de narrativas conservadoras ao vivo e sob a chancela da GloboNews. A mediação do programa não ofereceu ao telespectador qualquer correção factual ao longo de toda a atração.


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