Chame de destino, sorte ou puro instinto, mas algo mudou para sempre na vida do cientista australiano David Harasti quando ele mergulhou ao longo de uma parede de coral na costa da Papua-Nova Guiné, em 2002. Um tufo de algas vermelhas flutuando dentro de uma reentrância sombria chamou sua atenção, e então, contra todas as leis da botânica, o tufo se moveu.
O flash de sua câmera de filme disparou, registrando a imagem de uma criatura que iniciaria uma busca de um quarto de século pelos recantos mais remotos do Indo-Pacífico. Aquela perseguição obstinada terminou na descoberta mais extraordinária da carreira de Harasti, hoje principal cientista pesquisador do Port Stephens Fisheries Institute, na Austrália.
A criatura, ultra-rara e bizarra, recebeu nome científico em homenagem ao morador mais mítico da Vila Sésamo, o Sr. Snuffleupagus. Trata-se daquele personagem peludo, similar a um mamute, apresentado originalmente como o melhor amigo imaginário do Garibaldo, em quem nenhum humano acreditava.
“Quando voltei à Austrália e revelei as fotos da câmera analógica, eu consegui ver um olho”, recordou Harasti sobre o encontro de 2002. “Foi quando percebi que era realmente um animal, e ele não existia em nenhum dos meus livros. Eu soube ali que era uma espécie nova para a ciência”.
O cientista identificou tratar-se de algum tipo de peixe-fantasma-cachimbo, da família dos singnatídeos, que reúne cavalos-marinhos, dragões-marinhos e peixes-cachimbo. O problema é que ninguém jamais havia visto aquela versão peluda, do tamanho de um palito de fósforo, em qualquer registro científico formal.
Começou então a saga. «Voltei à Papua-Nova Guiné seis vezes para procurá-lo, jamais o encontrei. Fui às Ilhas Salomão porque ouvi dizer que alguém o havia visto lá, e nunca o avistei», relatou Harasti. “Foram 20 anos procurando essa espécie por todo o Indo-Pacífico, sem nunca vê-la novamente”.
Como um Yowie submarino — a criatura folclórica australiana similar ao Pé-Grande —, aparições esporádicas do peixe-cachimbo pipocavam em livros e blogs de mergulhadores. Alguns o viam vestido de laranja, outros em púrpura e verde, mas sempre desgrenhado, sempre fantasmagórico, flutuando entre a promessa científica e o mito.
A obsessão de Harasti tinha um motor pop-cultural curioso. A semelhança da criatura com o Sr. Snuffleupagus da Vila Sésamo, tanto em corpo quanto em espírito, capturou também a imaginação de Graham Short, especialista global na identificação de novas espécies de singnatídeos, que se juntou à busca prolongada.
Tudo mudou em 2020, quando amigos alertaram Harasti que haviam avistado o críptico peixe na Grande Barreira de Corais e enviaram fotografias. Munido de uma licença para coleta de espécimes e tendo apenas uma última chance, o cientista voou com Short até Cairns e correu para o Recife Saxon, onde o animal teria sido visto.
No primeiro ponto, nada. Mergulharam então em um segundo local, e ali, a 15 metros de profundidade, dentro de um nicho de coral enfeitado por algas filamentosas vermelhas, os pesquisadores encontraram dois exemplares do peixe-cachimbo desgrenhado, um macho e uma fêmea — material suficiente para descrever uma nova espécie.
“Graham e eu estávamos nos abraçando debaixo d’água. Eu não estou brincando. A gente batia palma um na mão do outro, tão eufóricos por ele estar ali”, narrou Harasti. “É algo que eu venho procurando há 20 anos. É o santo graal do mundo dos peixes-cachimbo-fantasma, o mais raro entre os raros”.
De volta ao laboratório, Short iniciou o trabalho taxonômico, submetendo o pequeno peixe a tomografias computadorizadas para esmiuçar a estrutura óssea. Foram medidos os raios das nadadeiras, o comprimento do focinho e analisada a genética, distinguindo-o definitivamente de qualquer outra espécie já catalogada.
O anúncio formal foi publicado no Journal of Fish Biology, batizando o animal como peixe-cachimbo-fantasma-peludo e conferindo-lhe o nome científico Solenostomus snuffleupagus, conforme revelou o jornal Sydney Morning Herald em reportagem detalhada sobre a expedição. A Sesame Workshop, produtora sem fins lucrativos por trás da Vila Sésamo, foi consultada e abençoou a homenagem.
«Eles ficaram em êxtase com toda a história», contou Harasti. “Este peixe-cachimbo-fantasma-peludo é tão raro, tão esquivo, nos evitou por tanto tempo. Tudo combina: tem os filamentos peludos, tem o focinho longo, é uma réplica perfeita do Sr. Snuffleupagus debaixo d’água, e carrega a mesma mística”.
A análise do estômago dos espécimes revelou pequenos peixes digeridos, e a espécie provavelmente também se alimenta de camarões misídeos e zooplâncton. O status de conservação ainda é desconhecido, mas a descoberta é crucial para futuros esforços de proteção — afinal, não se pode proteger aquilo que sequer tem nome.
“Tenho quase certeza de que ele é mais comum do que pensamos. É só tão pequeno e tão bem camuflado que as pessoas provavelmente nadam por cima achando que é um pedacinho de alga, e nem percebem o que é”, ponderou o cientista. Tanto Harasti quanto Short já descobriram diversas espécies novas para a ciência — Harasti, inclusive, tem um tipo de peixe-cachimbo batizado em sua homenagem.
“Este é, sem sombra de dúvida, nosso maior feito”, afirmou. O próximo objetivo da dupla agora é conseguir entrar no programa da Vila Sésamo e, finalmente, conhecer pessoalmente o Sr. Snuffleupagus — encerrando, num gesto de poesia improvável, o ciclo místico que começou dentro de uma reentrância de coral na Papua-Nova Guiné, há 25 anos.
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