Uma muralha de nuvens de ácido sulfúrico com 6.000 quilômetros de extensão que varre a atmosfera de Vênus a cada poucos dias tem sua origem explicada pela ciência pela primeira vez: o fenômeno é gerado pelo maior ‘salto hidráulico’ já identificado no sistema solar. O processo é o mesmo que ocorre quando a água de uma torneira aberta se espalha pelo fundo da pia da cozinha — só que em escala planetária.
A descoberta foi publicada em abril no Journal of Geophysical Research — Planets e resolve um mistério que durava uma década. Em 2016, a missão Akatsuki, da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), identificou essa enorme faixa de nuvens a cerca de 50 quilômetros de altitude na densa atmosfera venusiana.
A formação estava alinhada com o equador do planeta, com bordas dianteiras notavelmente nítidas e dimensões que desafiavam qualquer modelo atmosférico disponível. Nenhuma explicação satisfatória havia sido encontrada até agora.
A equipe internacional liderada por Takeshi Imamura, professor da Universidade de Tóquio, construiu modelos matemáticos que descrevem o fluxo dinâmico de gases e a ascensão de bolsões atmosféricos. O resultado apontou para uma onda planetária do tipo Kelvin — um fenômeno que na Terra ocorre tanto nos oceanos quanto na atmosfera — propagando-se para leste nas camadas baixas da atmosfera de Vênus.
Quando essa onda desacelera, ela desencadeia o salto hidráulico: o gás, antes raso e veloz, torna-se profundo e lento de forma abrupta. Esse freio brusco gera uma poderosa corrente ascendente de vapor de ácido sulfúrico que sobe até os 50 quilômetros de altitude, onde condensa e forma a colossal faixa de nuvens.
As nuvens então passam a se arrastar atrás da onda de Kelvin, que marca a borda dianteira da formação. O resultado visível é uma estrutura com 6.000 quilômetros de comprimento — equivalente a metade do diâmetro do próprio planeta, que mede 12.104 quilômetros — varrendo Vênus em poucos dias terrestres.
‘Agora somos capazes de mostrar que essa perturbação nas nuvens é causada pelo maior salto hidráulico conhecido no sistema solar’, afirmou Imamura em nota. ‘Nossa descoberta de que o salto hidráulico em Vênus conecta um processo horizontal de escala muito grande com uma onda vertical localizada e intensa é inesperada, pois na dinâmica dos fluidos esses elementos costumam estar desconectados.’
É a primeira vez que um salto hidráulico é identificado em um planeta além da Terra, conforme detalha reportagem do portal Space.com. O fato de o fenômeno se comportar de maneira inesperada reforça que os processos atmosféricos em outros mundos podem divergir radicalmente do que a ciência conhece a partir do nosso planeta.
A atmosfera de Vênus é composta quase inteiramente de dióxido de carbono, com pequenas quantidades de nitrogênio e traços de outros gases, incluindo dióxido de enxofre — precursor das nuvens ácidas. A pressão na superfície chega a 92 vezes a pressão atmosférica terrestre, e a temperatura ultrapassa 460 graus Celsius.
Outro traço singular de Vênus é a superrotação atmosférica: enquanto o corpo sólido do planeta leva 243 dias terrestres para completar uma rotação, sua atmosfera dá uma volta completa em apenas quatro dias. Esse dinamismo extremo é parte do cenário que torna o salto hidráulico venusiano tão monumental em comparação com qualquer análogo terrestre.
A descoberta também expõe uma lacuna nos modelos climáticos usados até agora para simular Vênus. ‘Até o momento, usávamos um modelo de circulação global para Vênus semelhante ao da Terra, mas esse modelo não inclui o salto hidráulico que identificamos agora’, reconheceu Imamura. ‘Nossa próxima etapa será testar essa descoberta com um modelo climático mais abrangente, que inclua outros processos atmosféricos.’
O avanço redefine a compreensão da circulação atmosférica venusiana e abre caminho para modelos mais precisos de um planeta que, apesar de ser o vizinho mais próximo da Terra, ainda guarda dinâmicas que surpreendem a ciência planetária.
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