Nas profundezas sombrias do Atlântico Norte, a mais de 50 milhas da costa da Cornualha, na ponta sudoeste do Reino Unido, jaz o que restou de um navio que carregou consigo 131 vidas e décadas de luto silencioso. A Guarda Costeira dos Estados Unidos anunciou oficialmente a descoberta do destroço do cutter Tampa — a embarcação cuja perda representa a maior baixa naval americana em combate durante a Primeira Guerra Mundial.
O feito foi alcançado por uma equipe britânica de mergulho técnico chamada Gasperados, um grupo inteiramente voluntário que passou três anos rastreando o fundo do mar em condições adversas. O destroço foi encontrado a uma profundidade superior a 300 pés, em uma região repleta de outros naufrágios que complicaram sistematicamente a busca.
Em setembro de 1918, um submarino alemão torpedeou o Tampa, afundando a embarcação em menos de três minutos. A bordo estavam 111 membros da Guarda Costeira dos EUA, 16 integrantes da Marinha Britânica e civis, além de quatro oficiais da Marinha americana — nenhum sobreviveu, e a tragédia ficou marcada na história com a expressão sombria ‘perdido com todos a bordo’.
O comandante da Guarda Costeira dos EUA, Kevin Lunday, reagiu à descoberta com palavras que carregam o peso de mais de um século de espera. ‘Quando o Tampa foi perdido com todos a bordo em 1918, deixou um luto duradouro em nosso serviço’, declarou Lunday em comunicado oficial. ‘Localizar o destroço nos conecta ao sacrifício deles e nos lembra que a devoção ao dever perdura.’
A busca teve início formal em 2023, quando os mergulhadores do Gasperados contataram o Gabinete do Historiador da Guarda Costeira propondo a missão. A partir daí, as duas partes trabalharam em conjunto para confirmar a identidade do sítio subaquático, cruzando registros históricos com evidências físicas encontradas no fundo do mar.
William Thiesen, historiador da Área Atlântica da Guarda Costeira dos EUA, descreveu ao portal Fox News o intrincado processo de investigação que tornou a descoberta possível. Contemporâneos do afundamento deixaram pistas cruciais: a posição reportada pelo comandante do submarino alemão, relatos de navios do comboio que ouviram a explosão e coordenadas registradas por uma aeronave que avistou destroços flutuando na superfície.
‘O problema era que muitos dos rumos e localizações anotados precisavam ser cruzados com os naufrágios existentes no fundo do mar’, explicou Thiesen. Antes de encontrar o sítio correto, os mergulhadores do Gasperados identificaram e descartaram outras estruturas subaquáticas — embarcações pesqueiras e outros navios afundados que, por um momento, pareciam ser o Tampa.
As condições enfrentadas pela equipe voluntária foram descritas como extremamente adversas: baixa visibilidade da água, mau tempo persistente e a profundidade considerável do local tornaram cada mergulho um desafio à parte. Segundo a reportagem do Fox News, os obstáculos pareciam ‘intransponíveis’, mas o grupo não recuou em mais de três anos de buscas.
A confirmação da identidade do naufrágio foi feita com base em registros históricos detalhados, e o sítio está sendo tratado com o que Thiesen chamou de ‘máximo respeito por aqueles que fizeram o sacrifício supremo por este país e por nossos aliados’. A Guarda Costeira já planeja pesquisas subaquáticas adicionais no local, todas conduzidas com o mesmo rigor e reverência.
Para compreender a magnitude do que foi encontrado, é preciso recuar ao contexto da guerra submarina irrestrita que a Alemanha imperial desencadeou no Atlântico a partir de 1917. Os U-boats alemães afundaram centenas de embarcações aliadas naquele período, transformando o oceano em um campo de batalha invisível onde a morte chegava sem aviso, vinda de baixo das águas escuras.
O Tampa era um navio de patrulha e escolta de comboios, função vital para garantir que suprimentos e tropas cruzassem o Atlântico com segurança. Sua perda, portanto, não foi apenas uma tragédia humana — foi um golpe simbólico e operacional que ecoou nas fileiras da Guarda Costeira por gerações, deixando uma ferida institucional que permaneceu sem cicatriz definitiva por mais de um século.
A profundidade de 300 pés onde o destroço repousa não é trivial para o mergulho técnico: exige equipamentos especializados, misturas de gases respiratórios diferentes do ar comprimido convencional e um treinamento rigoroso que vai muito além do mergulho recreativo. O fato de uma equipe voluntária ter conduzido essa missão sem recursos governamentais diretos torna a conquista ainda mais notável e revela o peso afetivo que certas histórias carregam mesmo para quem não tem laços familiares com as vítimas.
Thiesen foi enfático ao dimensionar o significado humano da descoberta, que vai muito além do valor arqueológico ou militar. ‘Trazer encerramento para o serviço e para as famílias da tripulação perdida do Tampa é o maior presente que se pode dar’, afirmou o historiador. ‘A equipe de mergulho do Gasperados prestou um grande serviço não apenas à Guarda Costeira, mas à nação — e somos muito gratos.’
O achado encerra, ao menos simbolicamente, um capítulo que permaneceu aberto por 107 anos na memória institucional da Guarda Costeira americana. O Tampa não era apenas um navio de guerra: era o elo entre centenas de famílias e a dor de um luto sem sepultura, suspenso nas águas frias do Atlântico desde o outono de 1918.
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