Estudo derruba mito da inferioridade cognitiva dos Neandertais em relação ao Homo sapiens

Crânios de neandertais e humanos modernos em exposição, ilustrando as diferenças nas formas. (Foto: smithsonianmag.com)

A ideia de que os neandertais eram criaturas primitivas e intelectualmente inferiores ao Homo sapiens acaba de receber mais um golpe da ciência.

Uma pesquisa publicada nos Proceedings of the National Academy of Sciences conclui que as diferenças na forma do crânio entre neandertais e humanos anatomicamente modernos não implicavam, necessariamente, diferenças significativas de capacidade cognitiva. O estudo derruba uma das explicações mais populares para o desaparecimento desses hominídeos há cerca de 40 mil anos.

O estudo foi conduzido por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos e da China, sob a liderança do antropólogo Tom Schoenemann, da Universidade de Indiana. Em comunicação à publicação científica Live Science, Schoenemann afirmou que os resultados “não sustentam a ideia de que os neandertais tinham cérebros e capacidades cognitivas significativamente diferentes dos humanos anatomicamente modernos que existiam na mesma época”.

O ponto central da pesquisa está em um problema metodológico ignorado há décadas: as diferenças cerebrais inferidas entre neandertais e humanos modernos nunca foram devidamente contextualizadas dentro da variação natural existente entre populações humanas contemporâneas. Para corrigir essa lacuna, os pesquisadores compararam os cérebros de indivíduos Han chineses com os de americanos de ascendência europeia, analisando 13 regiões cerebrais distintas.

O resultado foi revelador. Em 9 das 13 regiões investigadas, as diferenças encontradas entre os grupos humanos modernos eram maiores do que as diferenças entre neandertais e os humanos modernos que viveram ao lado deles. Conforme detalhou o Smithsonian Magazine ao cobrir o estudo, isso indica que quaisquer diferenças cognitivas entre neandertais e humanos anatomicamente modernos se encaixariam confortavelmente dentro da variação encontrada entre populações humanas vivas hoje.

“Parece provável que quaisquer diferenças cognitivas médias que existissem teriam sido muito sutis, se detectáveis”, declarou Schoenemann. Em outras palavras, se as diferenças cerebrais entre um Han chinês e um europeu moderno superam as diferenças entre neandertais e o Homo sapiens de 40 mil anos atrás, não há base anatômica sólida para sustentar uma suposta inferioridade intelectual dos neandertais.

Mas então, o que causou o desaparecimento dos neandertais? Os pesquisadores apontam para uma combinação de fatores demográficos e genéticos. A hipótese mais sustentada pelo estudo é a do “afogamento genético”: à medida que neandertais e Homo sapiens começaram a se cruzar — processo que teria se iniciado há aproximadamente 50.500 anos —, os genes dos humanos modernos foram gradualmente substituindo os genes neandertais, até que estes deixaram de existir como espécie distinta.

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que o DNA neandertal ainda corresponde a cerca de 1,7% a 1,8% do genoma de europeus e asiáticos modernos. Estudos mais recentes indicam que populações africanas também carregam traços de DNA neandertal em proporção não negligenciável, resultado de fluxo gênico de retorno da Eurásia — o que amplia e complexifica o quadro da miscigenação entre as duas espécies.

Outros fatores também podem ter contribuído para o fim dos neandertais: isolamento geográfico, baixa diversidade genética e vulnerabilidade a pressões ambientais como mudanças climáticas e competição com os humanos modernos. O que o estudo descarta, com dados concretos, é a narrativa de que os neandertais simplesmente “perderam” uma corrida intelectual contra o Homo sapiens.

A revisão da imagem dos neandertais vem ganhando força na arqueologia há anos. Evidências de expressão artística, uso de pigmentos, fabricação de ferramentas sofisticadas e a identificação de estrutura genética compatível com linguagem complexa compõem um retrato cada vez mais rico dessas criaturas. O paleoantropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin-Madison, já havia sintetizado bem essa mudança de perspectiva ao afirmar que os neandertais não eram “brutos estúpidos”, como a cultura popular os retratou por tanto tempo — mas sim seres “reconhecivelmente humanos”.

O novo estudo reforça que a extinção dos neandertais foi um processo complexo, moldado por demografia, genética e ecologia. A suposta desvantagem intelectual que justificaria seu desaparecimento, segundo a ciência atual, provavelmente nunca existiu.


Leia também: Estudo revela que neandertais praticavam odontologia há 59 mil anos em caverna na Sibéria


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.