Estudo mapeia regiões criovulcânicas em Ganimedes como alvos prioritários para missão europeia JUICE

A lua Ganimedes, de Júpiter, em imagem que destaca sua superfície. (Foto: phys.org)

Ganimedes, a maior lua de Júpiter e o maior satélite natural do sistema solar, guarda um dos segredos mais intrigantes da astronomia moderna: um oceano interior com mais água do que todos os oceanos da Terra reunidos.

Agora, uma equipe internacional de cientistas deu um passo concreto para orientar a exploração desse mundo gelado. Os pesquisadores identificaram as regiões com maior potencial de atividade criovulcânica na superfície da lua.

O estudo, aceito para publicação no The Planetary Science Journal, foi liderado pela pesquisadora Anezina Solomonidou, do Centro Espacial Helênico (HSC), da Grécia. A pesquisa reuniu cientistas de nove países, incluindo França, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Tchéquia, além de representantes da Agência Espacial Europeia (ESA) e do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA.

O trabalho foi intitulado “Potential Cryovolcanic Regions on Ganymede: A Priority Target for JUICE” e aponta alvos prioritários para a missão Jupiter Icy Moons Explorer (JUICE), da ESA. A sonda está atualmente em trânsito rumo ao sistema de Júpiter.

Criovulcões funcionam de maneira análoga aos vulcões terrestres, mas em vez de lava, expelem água e materiais voláteis através da crosta de gelo. Em mundos como Ganimedes, esse processo é alimentado pela flexão tidal — a deformação causada pela força gravitacional de Júpiter sobre a lua — que aquece o interior e empurra material do oceano subterrâneo para a superfície.

Essa dinâmica é a mesma que cientistas suspeitam estar ativa em Europa e Encélado, luas já associadas a discussões sobre habitabilidade extraterrestre.

Para identificar os candidatos mais promissores, a equipe reprocessou dados do espectrômetro de mapeamento no infravermelho próximo (NIMS), instrumento da sonda Galileo, da NASA, que explorou o sistema de Júpiter entre 1995 e 2003. A análise revelou depressões e estruturas superficiais incomuns que podem estar associadas à atividade criovulcânica, com destaque para quatro paternae — depressões que podem ter funcionado como bocais de criovulcões, depositando material do interior sobre a superfície gelada.

“Ganimedes é um dos mundos mais fascinantes do sistema solar”, afirmou Solomonidou em nota divulgada pelo Centro Espacial Helênico. “Compreender a possível atividade criovulcânica pode nos ajudar a entender melhor como os mundos oceânicos evoluem e se podem abrigar condições adequadas para a vida”, completou a pesquisadora.

A relevância científica do mapeamento está diretamente ligada ao que a missão JUICE poderá fazer quando chegar a Ganimedes. Conforme detalhado pelo portal Phys.org, a sonda carrega dois instrumentos centrais para essa investigação: o espectrômetro de imageamento MAJIS (Moons And Jupiter Imaging Spectrometer) e a câmera JANUS (Jovis, Amorum ac Natorum Undique Scrutator). Juntos, esses equipamentos poderão confirmar ou descartar a origem criovulcânica das estruturas identificadas no estudo.

Se a atividade criovulcânica for confirmada, as implicações são enormes. Regiões onde material do oceano interior aflora à superfície podem preservar moléculas orgânicas e outras biosignaturas — traços químicos compatíveis com processos biológicos — que teriam origem nas profundezas do oceano subterrâneo de Ganimedes.

Vale destacar que Ganimedes é a única lua do sistema solar a possuir campo magnético intrínseco, o que adiciona mais uma camada de singularidade ao corpo celeste.

A missão JUICE não se limitará a Ganimedes: a sonda também realizará sobrevoos detalhados de Calisto e Europa, caracterizando as três luas com sua suíte de instrumentos científicos. Em paralelo, a missão Europa Clipper, da NASA, conduzirá investigações complementares sobre Europa, com foco específico em seu oceano subterrâneo. A combinação dos dados das duas missões deve fornecer o retrato mais completo já obtido sobre os mundos oceânicos do sistema solar.

Desde que as sondas Voyager cruzaram o sistema de Júpiter nas décadas de 1970 e 1980, a hipótese de que Europa, Ganimedes e Calisto abrigam oceanos capazes de sustentar vida vem sendo refinada por décadas de observações. O estudo de Solomonidou e sua equipe transforma essa especulação em coordenadas concretas de exploração — e coloca Ganimedes no centro da próxima grande busca por vida no cosmos.


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