Estudo revela que cavalos foram domesticados séculos antes do que se acreditava

Silhuetas de cavaleiros em paisagem árida ao pôr do sol. (Foto: phys.org)

A história da domesticação dos cavalos é muito mais antiga e complexa do que a ciência supunha. Uma nova pesquisa publicada na revista Science Advances demonstra que os seres humanos já utilizavam cavalos de forma organizada desde o 4º milênio antes da Era Comum — empurrando para trás em séculos a linha do tempo aceita sobre o início dessa relação fundamental para a civilização.

O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Helsinque e liderado pelo professor Volker Heyd, combina genética equina com dados arqueológicos para reconstruir esse processo. A conclusão central é que a domesticação plena não foi um evento único, mas um processo lento, repleto de avanços e recuos, que se consolidou apenas pouco antes de 2000 a.E.C.

‘Cavalos já eram usados de formas sofisticadas e amplamente difundidas antes de podermos confirmar a domesticação plena. Essa lacuna reformula nossa compreensão da história humana’, afirmou Heyd. A pesquisa está disponível na íntegra no portal Phys.org, que detalhou os principais achados do trabalho.

O impacto histórico dos cavalos dificilmente pode ser superestimado. Das grandes migrações de povos nômades da Eurásia — como os Hunos, Ávaros, Magiares e o Império Mongol — ao uso decisivo em guerras que se estenderam até as duas Guerras Mundiais, o cavalo foi o motor da expansão humana por milênios. Foram eles também que cruzaram o Atlântico com os conquistadores europeus e dominaram o transporte terrestre até o advento da industrialização.

Entre 3.500 e 3.000 a.E.C., populações das estepes euroasiáticas começaram a se expandir em direção ao leste e ao oeste, levando consigo uma inovação que transformaria o mundo: a roda. Inicialmente, eram os bois que puxavam os primeiros carros, mas os cavalos chegaram no mesmo período com uma vantagem decisiva — um cavaleiro cobria em horas o mesmo terreno que uma carroça levava dias para percorrer.

Essa revolução na mobilidade está diretamente ligada a um dos maiores enigmas da linguística histórica. Os pesquisadores conectam a expansão dessas populações das estepes à disseminação das línguas proto-indo-europeias, ancestrais diretas da maioria dos idiomas falados hoje na Europa e na Ásia. O cavalo carregou pessoas e, com elas, palavras — moldando o mapa linguístico do mundo moderno.

O estudo também derruba um mito persistente sobre os cavalos selvagens. O Przewalski, animal que por décadas foi apresentado como o único remanescente vivo do cavalo selvagem original, é na verdade descendente de populações já domesticadas pelo ser humano. Isso indica que cavalos genuinamente selvagens deixaram de existir há muito tempo, tamanha foi a influência humana sobre a espécie ao longo de milênios.

A pesquisa é assinada por David Anthony e pelo professor Heyd, entre outros colaboradores, e foi publicada com o identificador DOI 10.1126/sciadv.ady7336. O trabalho reposiciona o cavalo não apenas como animal de carga ou de guerra, mas como agente ativo na construção das civilizações, das rotas comerciais e das fronteiras linguísticas que ainda hoje definem o mundo.


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